1- Ultimamente você tem investido bastante em produção. Pensa também algum dia em dirigir?
Will Smith: Não. De maneira nenhuma. Um filme como esse, quando vi o trabalho e a dificuldade de Francis para fazer uma cena simples, como na cena de abertura envolvendo o carro e os veados são semanas e semanas de trabalho e preparação. Meu cérebro não funciona dessa maneira. Quando penso em uma história, eu penso na perspectiva do ator. Francis vem trabalhando dois anos nesse projeto. Não consigo me imaginar fazendo isso.
2- Como foi trabalhar quase 1 hora de projeção dividindo a cena com um cachorro?
Will Smith: Fiz pesquisa com pessoas que são obrigadas a viver confinadas. E descobri que para não perder a sanidade, é necessário criar um horário para todos os seus afazeres. Como por exemplo, às 9 horas da manhã vou limpar as minhas unhas, às 9 e meia vou olhar para o sol, depois foi fazer ginástica até as 10 horas e assim por diante. Trabalhar sozinho também testa os seus limites do seu ego. Ao mesmo tempo como fazer essa idéia ser interessante. Legal que a reação em todas as pré-estréias que fui, a sensação do público foi a mesma. Até porque, para Nova York estar vazia, alguma coisa muito ruim aconteceu.
3- Quantos cachorros foram usados na filmagem?
Will Smith: Só foi usado um. Seu nome é Abby, que interpreta Sam. Percebi que mesmo nos animais existem diferentes estágios de inteligência. Abby parecia entender o que eu estava falando. Após essa experiência, percebi que possuímos cachorros idiotas. Nós amamos nossos cães, mas eles são idiotas.
4- Em “A Procura da Felicidade”, você atuou com seu filho. Em “Eu Sou a Lenda” com a sua filha. Como é trabalhar com a família?
Will Smith: É uma ótima oportunidade estar com meus filhos em cena. Interpretar foi o que eu mais estudei na minha vida. Se eles querem fazer isso também, é uma ótima oportunidade de ensiná-los. Eu também aprendo. É uma ótima experiência.
5- O filme fala sobre a fé. O personagem tem fé e esperança. Como foi manter a sanidade?
Will Smith: Não me conectei com a esperança para criar o personagem Robert Neville e sim a culpa. Ele sente-se culpado por não ter conseguido fazer o trabalho que todos esperavam que fizesse. Todos achavam que ele conseguiria conter o vírus e ele falhou. E foi uma das últimas coisas que ele disse para sua filha, que mandaria os monstros embora e não conseguiu.
6- Como foi trabalhar com Alice Braga?
Will Smith: Depois que assisti “Cidade de Deus”, resolvi que em meu próximo filme iria atuar com ela. Ela é uma autentica. Você acredita em tudo que ela fala. Isso você não consegue ensinar. A pessoa nasce com esse dom de ser autentico e natural. Era para ela estar aqui, mas ela está finalizando um filme em Toronto.
7- Como foi dirigir um carro em alta velocidade em uma rua que costuma estar abarrotada de automóveis?
Will Smith: Pensamos juntos: “qual seria o maior desejo de um morador de Nova York se a cidade estivesse vazia?” Não ter trânsito e assim pegar o carro mais veloz possível para cruzar pelas ruas desertas em alta velocidade. Eu dirigi em algumas daquelas cenas. Eu até bati em uma cena. Até isso foi divertido. No meu caso, eu sou um praticante de golfe. Eu pegaria meus tacos e veria o quanto longe iriam minhas tacadas. Parece um comercial do Tiger Woods, mas esse era um desejo pessoal.
8- Como foi a escolha de Bob Marley na trilha sonora? Ele tem uma certa importância na narrativa.
Will Smith: Durante a minha pesquisa para criar meu personagem, entrei no Google e escrevi “I am a Legend”. A primeira coisa que apareceu foi o álbum “Bob Marley - Legend”. Por sinal é um dos meus discos preferidos. Interessante que as letras das canções do disco tinha haver com algumas características que tinha pensado para o personagem. Liguei para Francis e Akiva e comentei isso com eles. Dias depois, Akiva trouxe um ótimo discurso com as idéias de Bob Marley. Foi um ótimo conceito. Um daqueles momentos que a mágica acontece.
9- Na cena final, acontecem várias coisas, mas seu olhar consegue hipnotizar o público. Uma performance artística em um filme estilo blockbuster.
Will Smith: Nossa intenção era fazer um filme pequeno de arte. Uma maneira que o público prestasse atenção no personagem da mesma forma que um filme de Oscar. E todos os outros elementos teriam que se encaixar nessa proposta. Não iríamos fazer um filme de gênero. Você pode fazer um filme de duas maneiras: um blockbuster para o verão ou uma produção menor artística. Essa nossa escolha nunca se encaixaria em um blockbuster nos Estados Unidos. Você pode matar quantas pessoas quiser em um filme, mas não em um cachorro nos Estados Unidos (risos). Um blockbuster nunca começa daquela forma tão devagar.
10- Foi usado muito silêncio.
Will Smith: Essa escolha do Lawrence foi ótima. Quase não tem musica.
11- A versão com Charlton Heston flerta com Jesus Cristo. Nessa versão parece ter uma espécie de homenagem também.
Will Smith: A história de Jesus Cristo foi o modelo. Em uma das últimas frases do filme, “a cura está no sangue”, você percebe isso. Na cena com a borboleta. O vírus seria o pecado original. E Neville precisa se sacrificar por causa desse pecado e assim se torna uma lenda. Você faz isso sutilmente. E algumas pessoas pegam.
12- Diferente das duas versões anteriores, você se sacrifica.
Will Smith: Eu adoro o conceito de jornada do herói de Joseph Campbell. Ele viajou pelo mundo e descobriu que existe esse conceito. O modelo dessa historia é Jesus. Em diversas partes do mundo as pessoas não se conhecem, mas todos têm uma história idêntica do salvador. Ele estudou todas essas historias e descobriu esse padrão. Você encontra isso em outros filmes, como no personagem Neo do “Matrix”. Em “Star Wars” também. Luke perde seus pais, sai em sua jornada e encontra a força. Mesmo na “Procura da Felicidade” acontece isso. E nós estamos programados para essa jornada do herói. Isso é internacional, independente da língua.

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