EU SOU A LENDA | Filme de arte disfarçado de blockbuster
Há tempos que Hollywood queria realizar mais uma produção baseada em Eu sou a Lenda (I am Legend), clássico de ficção científica escrito por Richard Matheson em 1954. Matheson também foi autor de “Bid Time Return” (1975) que se tornou o popular “EmAlgum Lugar do Passado” nos cinemas em 1980. O fã de ficção cientifica lembra de Matheson pelo livro “The Shrinking Man” (1956) que também virou filme com o nome “O Incrível Homem que Encolheu”, que ainda ganhou uma versão com uma mulher encolhendo. Matheson também escreveu diversos argumentos e roteiros para o seriado “Além da Imaginação”.
Eu Sou a Lenda ganhou sua primeira versão para cinema em 1964 e se chamou “Mortos que Matam” (The Last Man on Earth). O filme foi estrelado por Vincent Price e foi dirigido pela dupla Ubaldo Ragona e Sidney Salkow. É a versão que mais respeitou o livro. Foram feitas algumas pequenas modificações, mas que não alteraram as principais diretrizes da trama. Um exemplo foi o nome do personagem principal que se chamava Robert Neville e virou Robert Morgan.
A segunda versão foi estrelada em 1971 por Charlton Heston e se chamou “A Ultima Esperança da Terra” (The Omega Man). O longa dirigido por Boris Sagal retrata os questionamentos sociais da época e propunha vários debates filosóficos e sociológicos. Os mutantes não eram vampiros sedentos por sangue. Eram somente sensíveis a luz. Eles estavam determinados a destruir Neville, pois ele representava as causas da destruição da raça humana, isto é, a corrida armamentista. Matar Neville seria a destruição da ciência, arte e filosofia criada pela raça humana. Os mutantes são retratados com religiosos fanáticos. Paradoxos como moderno X medieval / individualismo X coletivo / guerra X paz, entre outros, surgem a cada seqüência. Além desses conceitos, temas como narcisismo, flower power e a relação inter-racial também ganharam espaço durante a narrativa. O final nos remete ao papel interpretado por Jesus Cristo em nossa sociedade.
Como na versão estrelada por Charlton Heston, o novo filme com Will Smith fez uma série de licenças poéticas na história original. Ele é uma combinação do livro com o roteiro do longa de Heston. A discussão filosófica acontece, porém sem a mesma densidade. A versão com Smith, acompanhado na trama pela atriz brasileira Alice Braga, tem sua premissa em pequenas doses de adrenalina, porém sem perder uma ligeira aura artística. Às vezes falta um pouco de habilidade no tratamento de certos elementos, mas essas escolhas devem ser colocadas na conta dos engravatados de Hollywood. Eles insistem em tratar o público como se fossem um bando de despreparados sem muita paciência para a reflexão.
Cineasta Francis Lawrence (Constantine) disponibiliza uma série de maneirismos naturais nas técnicas empregadas no filme. Percebe-se essas intenções na luz e na trilha sonora. Roteirista e produtor Akiva Goldsman conseguiu modernizar a trama propondo um debate sobre os temas atuais que afligem a humanidade. Até o conceito de Jesus Cristo reaparece com outros elementos bíblicos.
O que impediu que Eu Sou a Lenda se tornasse um filmaço foi maneira esquizofrênica que Hollywood retratou a produção. Uma característica permanente na Cidade dos Anjos. Ao escalar Will Smith como protagonista, a indústria cinematográfica norte-americana analisou as possibilidades de transformar o projeto em um típico blockbuster do verão fora de época. Atualmente, Smith é o maior astro de Hollywood em números. Assim os realizadores substituíram uma parcela da inteligência do roteiro por outros elementos corriqueiros visando o público médio. A modernidade resultou, inclusive, em mutantes criados em CGI. Uma manobra que visa facilitar a identificação com os usuários de videogame.
O filme alcançou os números imaginados. O longa já faturou 465 milhões de dólares até o momento e ainda falta estrear em algumas praças. Uma cifra recorde para uma produção lançada em dezembro. É Hollywood criando novas lendas. |