O PRODUTOR AUTOR
Transformers (Transformers, 2007) chega ao circuito com o sucesso de bilheteria mundial já consolidado. O filme já faturou 371 milhões de dólares pelo planeta e ainda falta estrear em várias praças. Com isso, diretor Michael Bay espanta o fracasso de “A Ilha” do ano retrasado e reconquista o seu posto de Rei Midas do verão norte-americano, um título sempre associado ao nome do cineasta Steven Spielberg. Talvez, o maior responsável pelo sucesso do filme. Spielberg foi um dos produtores do projeto e percebe-se sua influência. O roteiro investe em altas doses de ação para os adultos e ao mesmo tempo aposta na comédia inocente para o público infantil. Aconselhado pelo mestre, Bay deixou de lado o costumeiro dramalhão superficial que ele insiste em colocar em seus filmes. “Pearl Harbor”, “Amargeddon” e o já citado “A Ilha” são exemplos dessa prática equivocada.
Esse jeito de fazer cinema de Michael Bay talvez seja conseqüência de suas origens dirigindo videoclipes e peças publicitárias para a televisão. Seu estilo consiste em seqüências de ação rápidas e multiangulares no mesmo jeito do cineasta Tony Scott, outro oriundo do mesmo mercado, que investe mais na estética do que na substancia. Nos filmes de Bay sempre tem alguma tomada panorâmica de 360º, perseguições automobilísticas envolvendo veículos de última geração e explosões generalizadas, destruindo prédios e cidades. Ele compensa a sua falta de habilidade para aprofundar a dramatização da narrativa, investindo em cenas eletrizantes de ação, mas sem um significado intrínseco.
Vacinado pelo fracasso de dois anos atrás com “A Ilha”, Bay aceitou comandar o projeto de levar Transformers para a telona. Uma escolha que encaixa com perfeição no seu estilo. O universo dos robôs gigantes nunca foi um exemplo de histórias densas. Eles vieram ao mundo em 1984, como uma linha de brinquedos criados no Japão pela Takara. Em 1986, a empresa norte-americana Hasbro, dona de vários brinquedos conhecidos nossos como “Comandos em Ação”, fechou negócio com a empresa nipônica. Porém, como esses brinquedos não possuíam um plano comercial, resolveram inventar um universo palpável para o mundo ocidental. Foi feito uma parceria com a Marvel e os robôs ganharam as páginas das revistinhas. Nasciam assim os Transformers. Consequentemente se tornaram um desenho animado.
De lá para cá, a animação e os quadrinhos ganharam dezenas de variações, uma vez que Transformers foi uma série licenciada sem direitos exclusivos. Assim qualquer empresa que a adquirisse poderia fazer qualquer alteração na história e em seus personagens. Isto se refletiu nas divergências de cronologia entre as séries de desenho animado, quadrinhos e computação gráfica. Em 1986 teve sua primeira versão para o cinema em forma de animação. A produção é lembrada por ter sido o último trabalho do genial Orson Welles, fazendo a voz de Unicron. Outras participações memoráveis foram Leonard Nimoy (o eterno Sr. Spock de “Jornada nas Estrelas”), dublando Galvatron e Robert Stack (o Eliot Ness do seriado preto e branco dos anos 60 “Os Intocáveis”), na voz de Ultra Magnus.
No filme de Michael Bay, o roteiro foi escrito Roberto Orci e Alex Kurtzman seguindo as principais características originais dos personagens. Tirando algumas diferenças necessárias para tornar o produto de acordo com a mídia cinematográfica, foi dado um foco maior nos humanos para aumentar os elementos de identificação com o público. Mas os fanáticos não foram esquecidos. Para deixar esse espectador satisfeito, foi criado um prólogo que foi lançado em quatro revistinhas de quadrinhos e também em formato de livro, contando os acontecimentos anteriores. Mas não é necessário lê-los para compreensão da história.
Antes de iniciar o filme, um prólogo na voz de Optimus Prime nos conta que há muito tempo atrás no planeta Cybertron, existe uma guerra feroz entre os nobres Autobots (liderados por Optimus Prime) contra os maléficos Decepticons (comandados por Megatron) pelo controle do cubo Allspark, um místico talismã que dará poderes ilimitados para quem o possuí-lo. Os Autobots conseguem retirar o Allspark do planeta e Megatron parte em sua busca. Ele o encontra na Terra, no Oceano Ártico, em 1850. Cego pelo poder, acaba sendo congelado nas geleiras. Seu corpo é encontrado pelo Capitão Archibald Witwicky, mas antes de entrar em estado de coma, Megatron consegue gravar um mapa com a localização do Allspark nos óculos do capitão e envia uma transmissão para Cybertron. Um século depois, Sam Witwicky, descendente do capitão, vai ganhar seu primeiro carro. Ele descobre que o automóvel é Bumblebee, um Autobot disfarçado para protegê-lo. Mas ele não é o único Transformer na Terra. No deserto do Quatar, os Decepticons Blackout e Scorponok atacam uma base militar norte-americana em busca de informações sobre o Allspark. O Pentágono envia o Setor 7, especializado em capturar espécies alienígenas, para combater os robôs. Sam, sua amiga Mikaela e as forças militares acabam se encontrando no meio da guerra entre os Autobots e Deceptions.
Um argumento perfeito para Michael Bay criar suas seqüências recheadas de explosões pirotécnicas. São dezenas de cenas com sua costumeira capacidade de transformar uma pacata cidade em um cenário apocalíptico. Os efeitos especiais da Industrial Light Magic são de cair o queixo. Toda a tensão e o suspense são amenizados pelas doses cavales de humor tão inocente, chega a ser bobo em certos momentos. Ninguém escapa. Sam, seus amigos e até os militares estão a serviço do humor. Interessante, que mesmo sendo exagerado em algumas cenas a comédia funciona. Até porque o filme é voltado para o público infantil. Destaque para as cenas pontuadas por músicas pop norte-americanas, envolvendo Sam e Mikaela dentro do Bumblebee em formato de um carro do modelo Camaro da General Motors (GM).
O elenco também parece ter entendido esta combinação de comédia com ação. Mesmo atores com um currículo voltado para o cinema independente e artístico, como John Turturro (Agente Simmons), embarca na idéia. Outros veteranos que emprestam seus nome para dar credibilidade ao elenco são Jon Voight (Secretário de Defesa John Keller), Kevin Dunn e Julie White, pais de Sam na trama. Mas quem surpreende são os atores jovens. Shia LaBeouf se destaca equilibrando a dose certa de humor e ação de acordo com as cenas. Ele esta sendo apontado como um novo Orlando Bloom (com mais carisma e talento), por causa de sua participação em “Indiana Jones 4” e “Paranóia”, versão adolescente do clássico “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock, que ficou semanas em primeiro lugar nas bilheterias norte-americanas. Megan Fox faz Mikaela Banes, o interesse amoroso de Sam. Fica claro que sua presença é muito mais pela sua beleza, do que por seus dotes interpretativos. Vale destacar uma pequena participação de Bernie Mac como Bobby Bolivia, um vendedor de carros e Anthony Anderson como o hacker Glenn Whitmann. Eles são garantia de boas gargalhadas. Principalmente Anderson.
No caso dos Transformers, os Autobots escolhidos foram Optimus Prime, Bumblebee, Jazz, Ironhide e Ratchet. Os Deceptions, por sua vez, foram Megatron, Starscream, Barricade, Frenzy, Bonecrusher, Blackout, Scorponok e Devastator. Peter Cullen faz a voz de Optimus Prime, o mesmo que dublava nos desenhos. No caso de Megatron, Michael Bay descartou a voz original de Frank Welker dos desenhos, pois queria algo mais sombrio e maléfico. E Michael Bay achou que seria um sacrilégio pedir que Welker mudasse a sua voz tão conhecida pelos fãs. Quem acabou fazendo foi Hugo Weaving (Agente Smith da trilogia “Matrix”). Uma decisão acertada. Weaving vem se destacando em colocar sua voz em personagens fortes. Visto seu ótimo trabalho como V, em “V de Vingança”.
Os robôs também sofreram algumas pequenas mudanças. Vale algumas pequenas considerações. No caso de Optimus Prime, o caminhão original foi substituído por um Peterbilt, o mais alto da categoria. Ganhou também uma pintura em forma de labaredas para dar lhe um visual mais distinto. Bumblebee virou um Camaro. O original, um Fusca, foi rejeitado por Michael Bay, pois não queria que o automóvel lembra-se Herbie, o fusquinha mais famoso da Disney. As más línguas afirmam que foi a própria Volkswagen que não quis ceder seu carro, pois não queria associar sua marca a um filme de guerra. Polêmicas a parte, a maioria dos veículos se tornaram da GM, isso garantiu mais um patrocinador. Megatron deixou de ser uma pistola Walther P38 para se tornar um jato. Sua aparência ganhou contornos mais diabólicos.
Interessante que Michael Bay tenha sugerido mudanças, já que no começo ele fez cara feia para o projeto qualificando o como um “filme estúpido com brinquedos”. Depois da ressaca com “A Ilha”, ele tinha pedido a seu agente que conseguisse uma produção voltada para toda a família. Foi nesse momento que Steven Spielberg interveio e explicou para Bay que o tema seria sobre um garoto e o seu primeiro carro. E ainda disse que o a produção seria um casamento onírico de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” com os “Sete Samurais”. Essa combinação seria recheada de situações engraçadas protagonizadas por robôs gigantescos no nosso dia-a-dia. Percebe-se isso no final da narrativa. Pelo visto, Bay ainda tem muito a aprender com Spielberg, o verdadeiro rei Midas do cinema norte-americano.
Confira aqui o especial de Transformers do ALMANAQUE VIRTUAL!
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