Honra, obrigação, glória, combate, vitória.

“Nós marchamos. Da sagrada Esparta nós marchamos.”


É assim que começa a mini-série em cinco edições 300 (aqui, Os 300 de Esparta), de Frank Miller. A obra, que acabou gerando o filme, conta a história de uma batalha épica entre os soldados de Esparta e um gigantesco exército persa, mas o mais interessante é como Miller, que cuidou tanto dos roteiros quanto da arte, ilustra os soldados espartanos: como homens que respeitam Esparta (a consideram sagrada) e marcham sem hesitar para confrontar.
A obra conta a história da Batalha das Termópilas, quando o Rei Leônidas de Esparta liderou um pequeno exército contra os persas de Xerxes I.

Miller, que já demonstrava uma paixão por cenas simplistas em traços mas fortes em sombras e cores, reforçou isso com Sin City e 300. Enquanto a primeira só usa luzes e sombras, quase sem nenhuma cor, em 300 as cores são essenciais, usando cores quentes para mostrar o calor da batalha, e o prateado frio para as armaduras e escudos. Também tem mérito Lynn Varley, ex-esposa de Miller e colorista. A mesma Varley pintou os planos de fundo para o filme.

“Tinha de ser Lynn para o trabalho. Não sabia como faria sem ela. Tudo dependia das cores”, declarou Miller em entrevista.
A história já começa com os soldados marchando, para depois, em um momento de sono, contar como tudo começou: um representante do Rei Xerxes vai até Esparta procurar Leônidas dizendo que os persas querem aquelas terras.
Quando está prestes a ser jogado em um imenso poço, o mensageiro diz “Isto é loucura!” - “Isto é Esparta”, responde friamente Leônidas.

Leônidas, filho do Rei Anaxandridas II, carregava a lenda de ser neto de Heracles (também conhecido como Hércules, semi-deus filho de Zeus). Se casou com Gorgo, filha do seu antecessor no trono, Cleomenes I, seu meio-irmão.

O que não se fala muito é que, além de 300 soldados, Leônidas contou na batalha com mais de mil aliados. Porém, em consulta a uma oráculo, esta disse que Esparta só se salvaria com a morte de um da linhagem de Heracles.

“Leônidas era um homem rude e determinado. O exemplo de espartano. A cena em que ele diz a Ephialtes que este não poderia ser soldado é muito calma. Normalmente, Leônidas riria e chutaria Ephialtes do penhasco”, conta Miller.

Gorgo, a rainha, é retratada fielmente: calma, calada e compassiva. Sabe o que Leônidas quer lhe dizer mesmo quando este não diz nada. Historicamente, a ordem de Leônidas para a esposa foi para que ela se casasse novamente e tivesse filhos.

Frank Miller não gostou da rainha ter ganho um sub-entendo no filme: “Não concordei com o enredo criado para Gorgo no filme. Eu disse para Zack Snyder: ‘Isto é um filme de garotos! Faça-o assim’, mas depois vi que foi uma adição interessante.”
A editora americana Dark Horse foi ligeiramente corajosa ao publicar a série. Apesar de sua temática, alguns mais puritanos podiam reclamar do fato de Leônidas, seus soldados e as mulheres aparecerem nus.

Miller, porém, não usa isso para chocar, mas só para mostrar como era aquela sociedade. Segundo obras como a famosa pintura de Jacques-Louis David da batalha, os gregos usavam pouca ou nenhuma roupa, envoltos em capas e seus escudos para as batalhas. David, pintor neoclassicista, buscava a perfeição em cada detalhe, sempre se utilizando de extensas pesquisas para atingir o máximo de realismo possível.
“Tirei aquelas proteções para o tórax e as peles por uma razão. Queria que esses caras se movessem naturalmente. Tirei os elmos para que o leitor pudesse reconhecer as personagens. E pode conferir que só coloquei plumas no elmo de Leônidas, sendo que todos possuíam. Foi para garantir uma distinção de quem é o Rei nas cenas”, esclareceu Miller.

A chuva, no traço de Miller, parece uma legião de lanças atiradas contra os escudos e os soldados. Mostra como pode dificultar as coisas para Leônidas e seu exército. O sangue é o líquido que move toda a batalha, ganhando destaque quando aparece, mostrando como é feroz a guerra.
As semelhanças entre o filme e os quadrinhos só não são totalmente surpreendentes porque já vimos isso em Sin City, mas mesmo assim não tem como não ficar de queixo caído.

Cada cena é representada fielmente no filme. Claro que existem suas adaptações de quadrinhos estáticos para algo em movimento, mas houve uma preocupação em manter as cores, as luzes, as sombras e as tensões desta batalha histórica.
Além de criar um ótimo clima para a obra, 300 de Esparta respeita e faz referências a vários acontecimentos ligados à batalha. Dilios, o narrador de toda a história, é inspirado em Aristodemus, que feriu o olho durante a batalha e foi enviado por Leônidas para contar a história a todos. Porém, Aristodemus foi considerado um covarde, e renegado por toda a Grécia.

Xerxes, apesar de não aparecer em 300 de Esparta como é representado em gravuras (como um homem de braços magros, estatura normal, cabelo e barba, ao invés de um gigante moreno careca com adereços de ouro), é marcado como sendo “O Grande Imperador”, contendo diversas rebeliões. Após a batalha contra os espartanos, chegou a dominar Atenas e avançar para dominar o resto da Grécia, quando acabou sendo surpreendido pela reunião dos exércitos gregos. Bateu em retirada, e nada mais se sabe dele. Tudo indica que foi assassinado no ano de 465 A.C., e Artaxerxes I tomou o trono.
Estudiosos dizem que Ahasuerus, que aparece no Livro de Ester na Bíblia católica é, na verdade, Xerxes, retratado como um rei impiedoso e que se julgava superior a tudo e todos.
Miller explica que seu primeiro contato com 300 veio de Hollywood:

“Quando eu tinha uns seis anos de idade, meus pais me levaram para ver 300 de Esparta, um filme de 1962. Fiquei impressionado pelo poder da história, e todo o heroísmo envolvido. E isso me levou a uma vida de fascinação e pesquisa a respeito da história da Grécia, e particularmente às lendas de Esparta, algo mais difícil de se conhecer do que qualquer coisa sobre Atenas.

Os Espartanos não são como os outros gregos. São mais misteriosos, mais religiosos, e com uma visão que introduziu a idéia de lei por toda a Grécia, incluindo o fato de que nenhum homem deverá estar acima dela. Isso é incrível. Eles foram meus primeiros super-heróis.”


Miller já adianta que pode haver uma continuação: “Estou pensando em algo. Tem outra história que seria perfeita para isso. Mas não vai acontecer tão rapidamente. Se passaria dez anos depois.”

Enquanto 301 não acontece, você pode conferir Os 300 de Esparta no formato encadernado. Além disso, saiu uma “versão do diretor”, em formato widescreen de publicação, com a tensão viva nos dedos folheando as páginas.

 

por Vinícius Schiavini