Antes mesmo de Rodrigo Santoro comandar o exército persa nas telonas e Gerald Butler bradar os seu “this is sparta” em alto e bom tom, o mito espartano de igualdade, virilidade, honra e rígida disciplina militar vem servindo de modelo por gerações. O episódio das termópilas, por exemplo, se tornou um verdadeiro eco de liberdade ocidental e bravura que transcendeu séculos.
Isto é Esparta. Cidade-estado grega conhecida por sua rígida disciplina militar. Como esta cidade pode evocar tanto fascínio? O que ela tem de especial?
O Espartano era antes de tudo um guerreiro. Sua educação consistia em ser levado ainda menino por volta dos 7 anos para o treinamento pré-militar que durava até os 18 anos. Com esta idade entravam de fato no treinamento militar para apenas com 30 anos poder se casar e adquirir direitos políticos. O duro treinamento consistia em uma série de etapas e provações tais como ser obrigado a andar descalço e com a mesma roupa o ano inteiro para aprender a tolerar o calor e frio, a ter de roubar para se alimentar a fim de se preparar para os períodos de guerra etc.
O treinamento para que este fosse para a próxima etapa do preparo militar, por exemplo, consistia em simplesmente em armado apenas de uma faca, atacar um hilota qualquer (servo dos espartanos) no meio da noite e matá-lo de forma brutal. Esta prova de sangue não só marcava o valor do espartano como também servia para deixar estes servos que existiam em um número muito maior que o dos espartanos amedrontados a tal ponto que nunca tentassem uma sublevação (ou qualquer coisa, diga-se de passagem).
Esta formação militar só poderia formar um exército de elite. E foi o que de fato ocorreu. O exército espartano era altamente capacitado. Sua formação impecável era conhecida e renomada em todo mundo grego. Algumas manobras apenas o exército espartano era capaz de fazer e por conta disto seu respeito entre as demais cidades-estado gregas se fazia notar. E contra um exército deste nível de preparação que as forças do império persa se bateram no fatídico pega-pra-capar das Termópilas, um estreito desfiladeiro entre uma cadeia de montanhas e o mar Egeu. Se havia alguma chance para os gregos segurarem a mulambada, que descia o litoral grego marchando para Atenas, era ali.
E o que foi a batalha das Termópilas? Este fato que rendeu tantos frutos ao nosso imaginário faz parte de um conflito muito maior, as chamadas Guerras Médicas. Xerxes da dinastia dos Medas (daí o nome das guerras), encabeçou um expedição contra os helenos afim de subjugá-los. Seu pai, Dario já tentara tal façanha dez anos antes, mas tomou um cacete bonito na planície de Maratona. No entanto, o empreendimento de Xerxes era mais ambicioso. Sua expedição contava com cerca de 1.207 trirremes (navios de guerra) contendo cerca de 150.000 mil homens recrutados em todo território persa, obedecendo a uma logística e organizações impecáveis que permitiam o comando de pessoas de 46 povos diferentes divididos em 30 unidades distintas.
Os Helenos por sua vez contavam com um número bastante reduzido. Possuíam cerca de 40.000 homens e 400 trirremes. Isto sem contar os outros tantos que estavam em cima do muro com relação ao combate ou nitidamente dispostos a virarem a casaca e se unirem aos persas. Mesmo assim a estratégia grega frente aos Persas surtiu resultado.
Organizaram duas frentes de defesa para conter o avanço inimigo, uma por terra nas Termópilas e outra no mar em Artemísion. Nas Termópilas cerca de 5.000 homens resistiram com muita habilidade ao encurralarem os persas no estreito das Termópilas, impedindo que os mesmos se valessem de sua superioridade numérica. Num território em gargalo, poucos enfrentam poucos, dane-se os números dos exércitos. Eles resistiram por volta de três dias e só não conseguiram mais por conta de um traidor que ensinou aos persas uma passagem pelas montanhas. É calculado que Leônidas teria cerca de três horas para escapar com suas tropas sem ser interceptado pelos Persas. No entanto este decide com seus valorosos (e suicidas) 300, ficar e resistir ao invasor, juntamente com aproximadamente 600 téspios e 400 tebanos, mandando embora os restantes. Aquém dos tebanos que deram uma de espertos e desertaram para o lado Persa, as tropas espartanas e téspias se ferraram até o final e morreram combatendo.
Logo após a resistência das Termópilas e em Artemísion, Xerxes confiante avança pela Grécia Central. Neste momento, o embate decisivo das Guerras Médicas ocorre. A chamada batalha de Salamina. A estratégia da frota ateniense comandada por Temístocles consiste em levarem a pancadaria naval para o estreito de Salamina, jogando um balde de água fria no que se garantia a frota persa, que era o seu o maior número e velocidade.
Ao entrarem no estreito, as frotas bárbaras (não gregas) não tinham espaço nem para dar meia volta e fugirem feito menininhas, pois além de não conseguirem fazer uma formação de ataque sequer, eles se atrapalhavam todos ao se locomoverem com um número tão elevado de naus. Os atenienses se aproveitaram disto e derrotaram a frota persa que era aproximadamente três vezes maior que o seu número com estratégia e manobras rápidas. Com tamanha derrota, o próprio Xerxes volta horrorizado para a Pérsia com o rabo entre as pernas (no caso do Rodrigo Santoro, com os piercings também) deixando em terras gregas apenas “parte” do exército bárbaro (cerca de 50.000 homens, bobagem). Neste contexto, a Batalha de Platéia ocorre, descendo o sarrafo no que resta dos Persas dando para os gregos uma vitória inacreditável.
Xerxes chegou a queimar Atenas, mas é dito que se arrependeu. Ao fim, os helenos venceram por razões inexplicáveis, principalmente as batalhas navais. Será que fora apenas pelo conhecimento de terreno? Ou existia algo a mais em suas motivações? De certo que a diferença poderia se mostrar no simples fato dos persas lutarem apenas por serem súditos chicoteados em suas obrigações para com o rei que os dava a escolha “altamente democrática” de lutar ou morrer (o que no final das contas dava no mesmo). O fato é que a Vitória veio de forma não esperada e inacreditável, o que no final das contas não foi nenhum presente de grego.
O sacrifício de atenienses, espartanos, téspios e tantos outros, foi memorável. O episódio das Termópilas nos mostra o valor dos espartanos e de toda uma sociedade que praticamente não deixou vestígio além dos relatos sobre seus feitos. Proezas que evocam o mito espartano em nossos corações e nos fazem gritar no cinema nos dias atuais. Por isso, nos atraímos tanto pelo valor dos 300. Porque no final das contas todos nós gostaríamos de lutar por tais ideais e poder em nossos túmulos ter por epitáfio os dizeres : “Dize aos lacedemônios, estrangeiro vagante: aqui pelas leis espartanas , jazemos nós.”
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