Piratas do Caribe – No Fim do Mundo | Crítica

sábado, 7 de junho de 2008


Piratas do Caribe (Pirates of the Caribbean) teve o mesmo problema que a franquia “Matrix”. A primeira produção fez tanto sucesso, que virou uma trilogia. O roteiro de No Fim do Mundo (At World’s End, 2007), terceiro capítulo da saga, repete o mesmo problema de “O Baú da Morte”, o segundo filme. O script fica a mercê de uma série de cenas de ação, se tornando refém dos efeitos especiais. O número de personagens aumenta e, por conseguinte as tramas que os envolve. O resultado é um emaranhado de situações forçadas que não sustentam a narrativa. Fica até difícil acompanhar a história repleta de traições e objetivos escusos. Diretor Gore Verbinski recorre sempre ao discurso, por parte de algum personagem, para que o público possa entender o que está acontecendo.

Esse é o problema de trilogias que não foram planejadas originalmente nesse formato. Os personagens ficam maiores que a história e a todo o momento surgem explicando para as outras figuras em cena suas motivações. Esse recurso serve para que todos esclareçam seus objetivos. Chega a ser hilário a maneira como todos confiam nos tratos, sabendo que ninguém irá cumprir o combinado. Mas isso é entretenimento e o que importa é faturar. Se a fórmula está dando certo, então a solução é aumentar ainda mais o espetáculo.

Infelizmente a proporção não é justa. Quanto mais efeito especial, menos tempo para os atores apresentarem ao público suas habilidades. Até porque para isso existe as peças de Shakespeare. O jeito é abusar da caricatura e da personalidade marcante para disputar com a magnitude da obra. Geoffrey Rush, no papel do capitão Barbossa, utilizou desse recurso para criar um personagem memorável. Outros que conseguem se destacar em poucas cenas são Stellan Skarsgärd (Bill Turner), Lee Arenberg (Pintel) e Mackenzie Crook (Ragetti), fora o macaquinho Jack e o papagaio Marty. Nesse terceiro filme, temos ainda a presença de Keith Richards, guitarrista do Rolling Stones. Ele interpreta o Capitão Teague, pai de Sparrow. Aparece rapidamente, mas o diálogo com seu filho é marcante. As palavras ditas por Sparrow evocam o próprio passado real de Richards: “Você viu e fez de tudo, e sobreviveu. Isso que importa: sobreviver”.

Uma referência interessante é quando Turner, Beckett e Jones negociam com Sparrow, Barbossa e Elizabeth em um banco de areia em volto pelo mar. A cena lembra o western spaghetti “Três Homens em Conflito” do diretor Sergio Leone. Até a trilha tem uma gaita sintetizada para nos remeter as lendárias trilhas sonoras de Ennio Morricone. Vale ressaltar também que nos poucos momentos que o roteiro confuso de Ted Elliott e Terry Rossio permite ao elenco desenvolver o melodrama, a narrativa cresce. São poucas ocasiões, mas antológicas e repletas de emoção. Cenas como a com Bill Nighy, que interpreta o famigerado Davy Jones, recolhendo uma lágrima com um de seus tentáculos. Seu olhar de um homem apaixonado e traído é emocionante. Uma cena simples, mas que explica muito mais o porquê de seus atos, do que as outras dezenas de outras que aparece vociferando. Fica claro que a crueldade depende da perspectiva. Pena que não investiram mais em momentos como esse. Ele ainda teve uma outra cena comovedora, quando conversa com Tia Dalma (Naomie Harris).

Outros não tiveram a mesma sorte. E o que mais saiu perdendo foi Chow Yun-Fat no papel do Capitão Sao Feng. Seu personagem é desperdiçado e não recebe o respeito que o ator merece. Porém, o público é compensado com uma overdose de Jack Sparrow. Não que ele participe do filme todo, mas as cenas envolvendo sua consciência, entre outras particularidades, são hilárias. Johnny Depp consegue desenvolver com ainda mais propriedade um personagem que já faz parte da história do cinema. Inclusive, ter que esperar meia-hora por sua primeira aparição é tedioso. É de se imaginar o que seria de Piratas do Caribe sem Jack Sparrow. Seria a mesma coisa que a primeira trilogia de “Star Wars” sem Han Solo. Por sinal, a estrutura remete, em alguns momentos, a obra de George Lucas. Em “Império Contra Ataca”, segundo filme da saga interplanetária, Han Solo é aprisionado. No “Retorno do Jedi”, terceiro capítulo, Luke e Leia (ou seria Will Turner e Elizabeth Swann?) partem em seu salvamento. Han Solo só retorna a trama depois de meia-hora de projeção.

Já que o assunto é sagas estelares, a cena final envolvendo o personagem Lorde Cutler Beckett (Tom Hollander), da Companhia de Comércio das Índias Orientais, lembra também “Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida”. Beckett, com seu jeitão superior, está abordo do Endeavour, um barco super equipado de canhões. Ao enfrentar Jack Sparrow e seus companheiros, acaba ficando no meio do fogo cruzado entre o Pérola Negra e o Flying Dutchman. Alguém lembra do capitão Kirk e o capitão Sulu gritando “Fire” para destruir a nave klingon do General Chang? Chang, um poço de arrogância, também estava com sua espaçonave bem no meio do conflito. Até a maneira poética de morrer de Beckett, em meio de explosões e fogo, lembra o destino de Chang. Essas coincidências…

Retornando ao elenco, alguém pode estar sentindo falta de Orlando Bloom (Will Turner) e Keira Knightley (Elizabeth Swann). Infelizmente, eles continuam tirando espaço de gente que merecia mais tempo em cena. Mas vale uma ressalva. A culpa não é deles que seus personagens sejam tão enfadonhos. Como torcer pelo grande amor dos dois, se eles mesmos passaram a trilogia inteira se enganando? Ao mesmo tempo, se perdoando em segundos. A maior dolo é dos roteiristas. Falta credibilidade no sentimento que um jura ter pelo outro. Eles não conseguem estabelecer um relacionamento que envolva o público. E talvez esteja aí o grande problema do roteiro de Piratas do Caribe – No Fim do Mundo: falta coração. Os personagens mesmo sendo sólidos, até em situações surreais, não conseguem emocionar a ponto de nos importarmos com eles. Com a exceção de Jack Sparrow. A responsabilidade reside na forma que a história foi executada. Aliado a isso, centenas de diálogos que se perdem durante a narrativa.

Mas nada disso diminui o impacto da produção. Tecnicamente o filme é um arroubo visual. Fotografia, figurinos, cenários e os efeitos especiais são de cair o queixo. Edição e música completam o espetáculo. Diretor Gore Verbinski comanda com bastante habilidade, dando grandiosidade a obra. A batalha final entre as forças de Davy Jones e Jack Sparrow é eletrizante. São 40 minutos de pura magia hollywoodiana. E ainda tem uma cena após os créditos que conclui o relacionamento de Will e Elizabeth. Isso não impede que eles retornem. Porém, o certo seria dar seqüência as aventuras de Jack Sparrow sem a presença dos dois pombinhos. O pirata merece um filme com um roteiro que esteja à altura da criação de Johnny Depp.

4 Comentários
1 evilmirror diz:
há 3 anos e 5 meses

PRIMEIRO!esse filme nao ficou bom como eu esperava.

2 ANDRINHO diz:
há 2 anos e 6 meses

o filme ruim……….

3 Nathan diz:
há 1 ano e 9 meses

Nada a ver, o filme ressalta o amor entre eles, a escolha, os desafios, que acabam decidindo as consequencias de cada um do filme. E foi esse amor em meio a luta que deu a emoção principal do filme, é uma pena que o final seja tão romantico mas tão triste. Porem isso finaliza a saga, dando agora a chance de Jack ter seu papel principal.

4 optimus prime diz:
há 1 ano e 4 meses

A tia dalma parece a Jada Fire

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