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Homem-Aranha 3 | Crítica


sábado, 7 de junho de 2008 Mário "Fanaticc" Abbade

Um final digno.


O capítulo final da trilogia com o herói que assina “do seu amigo de sempre” finalmente chega aos cinemas. Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, 2007) fecha com dignidade uma história iniciada em 2002. O cineasta Sam Raimi conseguiu o que parecia impossível: agradar aos fãs xiitas do aracnídeo e ao mesmo tempo o público em geral. Nesse terceiro capítulo, a história inicia logo após os eventos ocorridos em “Homem-Aranha 2”, diferente do 1 ano que separa a primeira história para a segunda. Harry Osborn (James Franco) descobriu que Peter Parker (Tobey Maguire) é o Homem-Aranha e não poupará esforços para se vingar da morte de seu pai. Ele culpa o herói e usará o armamento do Duende Verde (Willem Dafoe), seu pai, para destruí-lo. Parker amadureceu seu relacionamento com Mary Jane (Kirsten Dunst) e se tornou um ícone popular para os cidadãos de Nova York. Mary Jane está prosseguindo sua carreira como atriz em um espetáculo da Broadway.

Em outra parte da cidade, Flint Marko (Thomas Haden Church) escapou da prisão e busca desesperadamente uma cura para sua filha adoentada. Tentando fugir da polícia, acaba sendo vítima de uma experiência em que seu DNA se funde com a areia. Mais tarde, Parker descobre que Marko é o responsável pela morte de seu tio Ben (Cliff Robertson). O jovem herói ainda precisa competir com Eddie Brock (Topher Grace), um fotógrafo rival do Clarim Diário, por um emprego no jornal. Brock nutre uma paixão por Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard), colega de Parker na faculdade. Stacy, que é filha do Capitão de Polícia (James Cromwell), também poderá se tornar uma pedra no caminho do relacionamento de Parker com Mary Jane e a mesma terá fortes razões para ter ciúmes da moça. Para complicar ainda mais, um meteoro cai na cidade trazendo um alienígena. Uma criatura simbionte que precisa de um hospedeiro para se manter viva.

Fora as novidades, Rosemary Harris e J.K. Simmons retornam respectivamente como a tia May e o editor J.J.Jameson. Elizabeth Banks, que interpreta Betty Brant, finalmente tem o seu momento de sedução com Parker. Até Stan Lee, um dos criadores do Homem-Aranha, ganhou uma cena com diálogo. Com tantos personagens novos e subtramas, ficou a dúvida se Sam Raimi conseguiria converter isso tudo em uma narrativa fechada na quais as motivações ganhassem um desenvolvimento crível.

O medo era que o resultado final ficasse semelhante ao filme “X-Men: O Confronto Final” (2006), de Brett Ratner, ou seja, com muita ação e pouca substância. Raimi conseguiu que todas as tramas, por mais soltas que fossem, tivessem uma conclusão lógica. Mas isso não impediu que no contexto geral o saldo ficasse aquém de “Homem-Aranha 2”. Faltou a concisão do veterano Alvin Sargent, que até participa do terceiro roteiro, mas foi Ivan Raimi que ditou as regras no script.

O filme retorna a temas como redenção, responsabilidade e perdão. As relações freudianas de Harry com seu pai e Parker ganham outras camadas. Elementos shakesperianos da tragédia também são empregados nas interações entre diversos personagens. Parece até forçado em alguns momentos, mas perfeitamente lógico, já que a intenção de Raimi era que todos tivessem algum tipo de ligação emocional. Sam ainda teve que conviver durante todo esse tempo com os anseios dos fãs, do público e dos realizadores.

Muitas vezes os desejos desses grupos são conflitantes. Preocupado com isso, nos primeiros filmes, ele resolveu desenvolver a trama em torno de um só vilão para dar uma sustentação psicológica a narrativa. No terceiro filme, isso foi abandonado por razões mercadológicas e também porque o diretor e os atores disseram que era o último filme com eles. O tempo foi dividido entre o Homem-Areia e o Venom.

Em ambos os casos, isso ganharia camadas multifacetadas se só um fosse o escolhido. O projeto original era assim. O vilão seria só o Homem-Areia, já que era necessário concluir também o destino de Harry, filho de Norman Osborn. Dessa forma, seriam maiores as possibilidades de desenvolvimento de contornos dramáticos envolvendo a família de Marko. Mas isso se desfaz na opção de dois vilões em Homem-Aranha 3 e a participação da atriz Theresa Russell como esposa do Homem-Areia fica reduzida a uma aparição de segundos. O Homem-Areia perdeu espaço em relação ao Venom por motivos óbvios (as motivações de Brock são desenvolvidas em torno de Parker), mas para compensar, Raimi reservou um destino digno para Marko.

Vale dizer que a maioria dos vilões, nos três filmes, ganhou motivações justas. Bandidos e mocinhos são separados por uma linha tênue. Baseado nesse raciocínio pode-se acrescentar Harry Osborn e o próprio Homem-Aranha na lista. No caso de Harry percebemos o caos que a sua dupla personalidade causa em sua vida. Um indivíduo que tem tudo, mas ao mesmo tempo possui um enorme vazio dentro de si. No mundo real é ele que possui o super-poder através de suas posses, mas isso não trará a paz de espírito que precisa. Já Peter Parker demonstra aos poucos os efeitos negativos de seu ego inflado.

Acaba perdendo o controle de vez ao ter contato com o simbionte. Seu lado negro aflora desestabilizando o equilíbrio. Suas atitudes são tão questionáveis quanto à dos vilões. Nesse momento, Raimi desmistifica o arquétipo do herói e mostra que a maior batalha de um super-herói reside em si mesmo. Como não usar seus super-poderes de forma egoísta e mesquinha. Todos terão que fazer escolhas. Alguns conseguirão perceber as conseqüências dessas escolhas a tempo de reverter o processo. Essa percepção é o diferencial de Parker. Isso que torna o Homem-Aranha um herói legítimo. Ele pode fazer a diferença. Esse pensamento ganha força no único diálogo dito por Stan Lee. Fica claro, que os fins não justificam os meios.

Pode parecer pretensioso buscar esses temas em um filme de um personagem dos quadrinhos. Mas o diretor vem desenvolvendo isso com astúcia desde o primeiro filme. Os roteiros provocaram algumas mudanças em relação aos quadrinhos para que isso pudesse ser evidenciado. Ao mesmo tempo foi uma forma para se encaixar na narrativa e manter a ordem cronológica iniciada desde o primeiro filme. No caso do Homem-Areia, ele ganhou uma família e uma filha doente. Rouba para pagar seu tratamento. Nos quadrinhos o rapaz, abandonado pelo pai, se tornou capanga do crime organizado. Ao fugir da penitenciária, acabou numa praia com areia radioativa, que se mesclou no seu corpo.

Depois de confrontar o Aranha várias vezes, chegou a se tornar um herói e integrar os Vingadores. Mas após ter sua mente manipulada pelo vilão Mago, se tornou bandido de novo. Já Eddie Brock, não era namorado de Gwen Stacy e nem fotógrafo. Ele era repórter do Globo Diário (concorrente do Clarim Diário) que conseguiu entrevistas com o serial killer Devorador de Pecados. O Aranha desmascarou que o Devorador não era o verdadeiro assassino e Brock ficou desacreditado. Sua esposa o deixou e ainda descobriu que estava com câncer. O simbionte se uniu a Eddie, depois que descobriu que ele odiava o Aranha, dando origem ao Venom. Tentou matar o Aranha sem sucesso. Chegou a combater o crime contra o Carnificina, uma cria do simbionte. Mas depois se voltou mais uma vez contra o Aranha. Antes de morrer, por causa do câncer, vendeu o simbionte para o Escorpião.

A citada Gwen Stacy foi o primeiro amor de Peter Parker e não Mary Jane. Era filha do capitão de Polícia George Stacy. Ela admirava Parker por causa de sua inteligência e se tornou sua namorada. O romance estremeceu quando o pai dela morreu durante um combate entre o Aranha e o Dr. Octopus. Ela passou a culpar o aracnídeo e foi seduzida por Norman Osborn. Engravidou e escondeu isso de Peter e Norman. Teve um casal de gêmeos. Mas antes de contar para Peter, foi capturada pelo Duende Verde e jogada de uma ponte.

A cena foi utilizada no primeiro filme, só que a vítima era Mary Jane, que foi salva. Nos quadrinhos, o aracnídeo não conseguiu salvar Gwen. Vale dizer que essa gravidez foi criada pelo escritor J. Michael Stracynski, mudando os originais dos anos 60 e repudiada pelos fãs por manchar o caráter de Gwen. O filho do assassino de Gwen, Harry Osborn, sofreu poucas mudanças no cinema. A grande diferença é que teve problemas com as drogas e quando ficou amnésico, depois de uma batalha com o Aranha, assumiu as empresas do pai e se casou com Liz Allen. Teve um filho com ela, Norman Jr., mas voltou a ser o Duende Verde, até que morreu ao ingerir a fórmula criada por seu pai.

Comparando os filmes com os quadrinhos, percebe-se que desde o início Raimi não queria conceber mais um filme de ação recheado de explosões e efeitos especiais, mas sim uma aventura com personagens que tivessem emoções humanas reais que o público pudesse se identificar. Sua tarefa era difícil, mas o elenco compreendeu sua ambição. Os atores presentes desde a primeira produção, repetem seus ótimos desempenhos. Não há necessidade de citar o óbvio sobre eles, mas vale mencionar alguns detalhes. Kirsten Dunst finalmente consegue arrancar simpatia dos fãs mais xiitas. J.K. Simmons, como o editor rabugento do jornal, continua ofuscando. Ted Raimi, irmão de Sam, é a escada a serviço do humor de Simmons na redação do jornal. Ele interpreta o atrapalhado Hoffman.

Os novos contratados foram bem escolhidos. Além de parecerem fisicamente com os personagens dos quadrinhos, souberam retratar todas as nuances psicológicas nas poucas cenas que aparecem. Thomas Haden Church se caracteriza por uma atuação contida para marcar a personalidade conflitante de seu personagem. Topher Grace, que chegou a ser sondado para ser o Homem-Aranha na época do primeiro filme, rouba todas as cenas que aparece. Destaque também para Bryce Dallas Howard, a melhor coisa que o diretor Ron Howard fez na vida.

Um colosso de mulher e atriz. E Sam Raimi consegue filmá-la de tal forma que transforma a jovem atriz em um mulheirão. Tudo isso sustentado nos eletrizantes efeitos especiais supervisionados por Scott Stokdyk e nas cenas de ação que irão encantar os fãs. Devemos destacar também a fotografia de Bill Pope, a edição de Bob Murawski, os figurinos de James Acheso e os cenários de Neil Spisak.

Armado com praticamente a mesma equipe e amparado pelo sucesso estrondoso nos dois filmes anteriores, Sam Raimi se sentiu mais a vontade para desenvolver seus temas preferidos. Fora as alusões aos Três Patetas, paixão do diretor, o humor negro (marca registrada de Raimi) foi o tom que marcou o lado sombrio de Parker. Impossível não comparar essas cenas engraçadas com as protagonizadas por Bruce Campbell (ator assinatura de Raimi que participa mais uma vez em uma seqüência hilária) na trilogia “A Morte do Demônio” (“Evil Dead”), também concebido por Sam.

Percebemos referências ao personagem Tony Manero de “Os Embalos de Sábado A Noite” (1977), de John Badham, andando pelas ruas de Nova York. Como também a Jerry Lewis no filme “O Professor Aloprado” nas cenas da boate. Essas menções às vezes acontecem em clipes musicais divertidos como no segundo filme. Uma outra homenagem foi destinada ao cineasta Woody Allen, um novairoquino convicto. Dois filmes seus compõe o nome do espetáculo protagonizado na Broadway por Mary Jane: “Manhattan Memories”. Talvez o maior tributo seja a maneira esplendorosa que Raimi filma a cidade de Nova York. É contagiante o afeto e o orgulho dos nova-iorquinos para com o aracnídeo.

A Columbia Pictures anunciou que pretende prosseguir com a franquia. Agora é torcer para que Raimi continue comandando o projeto e que os atores principais retornem aos seus papéis. Imagina se o dublê de diretor Joel Shumacher assume o projeto. Nem o sentido do Aranha nos salvaria dessa tragédia.

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1 COMENTÁRIO

  1. evilmirror diz:
    sábado, 7 de junho de 2008 às 10:11 pm

    PRIMEIRO!o melhor da trilogia[2]

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