Batman Begins | Crítica

sábado, 7 de junho de 2008

‘Batman Begins’ resgata com muita competência e dignidade, a proposta original do personagem, criado por Bob Kane e Bill Finger em 1939

Os morcegos sempre foram apontados como criaturas demoníacas na literatura e nos filmes sobre vampiros. Seus vôos rasantes na escuridão da noite com um bater de asas impetuoso sempre foi utilizado para causar terror.

O que poucos sabem é que esses quirópteros, mamíferos como nós, também ficam assustados com a presença do homem. Como qualquer ser do nosso planeta, o medo é um sentimento comum para com o desconhecido.

Baseado nesses conceitos que Bob Kane e Bill Finger criou um dos ícones mais cultuados de nossa cultura pop. Batman é um herói que tem seu alicerce fundamentado nesse conceito. Quando criança, seu alter-ego Bruce Wayne, despenca sobre uma caverna subterrânea embaixo da mansão de seus pais. No interior dessa gruta sepulcral que o jovem Bruce teve o seu primeiro contato com os morcegos. Os pequenos animais assustados com a sua inusitada presença, partem num arroubamento frenético, envolvendo a criança amedrontada. Kane acrescentou ao medo uma tragédia que serviria de trampolim para a sua transformação: o assassinato cruel e brutal de seus pais numa noite fria quando criança.

Dessa combinação, medo e tragédia, que a personalidade de Batman foi entalhada. Além de ser um super-herói sem superpoderes, completamente humano, todos os traços de sua psicopatia estão presentes desde a sua primeira aparição. Sua individualidade consciente é o seu elemento de assimilação. Essas características o fizeram o herói mais popular desse universo segundo pesquisa realizada pelo Discovery Channel. Seu flagelo é uma alusão as figuras dramáticas skakesperianas. Em Batman Begins (EUA, 2005) diretor Christopher Nolan utiliza-se dessa origem para construir um belo filme sobre o Cavaleiro das Trevas. Antenado com as idéias de Kane e Finger, Nolan faz uma fita autoral, mas comprometida com a realidade. O único traço que prende o personagem ao mundo imaginário é o mitológico traje. Sem ele, poderíamos identificá-lo nas dezenas de justiceiros que surgem de tempos em tempos nas páginas policiais.

Christian Bale, que interpreta Batman/Bruce Wayne, é o pilar de sustentação dos objetivos de Nolan. Sua performance é instintiva e técnica, provando de vez ser ele um dos melhores atores de sua geração. Além da busca pelo real, essa é a primeira vez que Batman é o verdadeiro protagonista. Nas outras produções, ele era colocado como coadjuvante de vilões ou situações constrangedoras.

Os bandidos escolhidos para contar a sua trajetória foram Ra’s al Ghul (Ken Watanabe), o Espantalho (Cillian Murphy) e chefe do crime organizado Carmine Falcone (Tom Wilkinson). Michael Caine (mordomo Alfred), Gary Oldman (sargento Gordon), Morgan Freeman (inventor e funcionário das indústrias Wayne, Lucius Fox) e Liam Neeson (Henri Ducard) têm pequenas, mas ótimas contribuições.

São aquelas participações que viram parte integrante dos neurônios de qualquer batmaníaco. Completando ainda temos o sumido Rutger Hauer na pele do empresário Richard Earle e Katie Holmes como Rachel Dawes, o inevitável interesse romântico do herói. Todo o elenco de apoio incorpora os lendários personagens do Homem-Morcego, lembrando uma orquestra afinada nos mínimos detalhes. Nolan e Bale funcionam como maestro e solista respectivamente.

Resolvido o elenco, diretor Christopher Nolan continuou sua obsessão pela a fantasia mais realística possível. Gastou 180 milhões de dólares para construir cenários completos, brinquedinhos para o morcego e vasto material pirotécnico. Todos os objetos e a roupa de Batman são funcionais, projetadas cirurgicamente por especialistas em armamento.

O Batmóvel é o resultado do cruzamento do motor de uma Lamborghini (alguns modelos ganharam o motor 350 CID do Chevrolet V8), esportivo italiano e o Hummer, veículo utilizado pelos militares americanos. Dos oito construídos, cinco eram completamente operacionais em todos os seus detalhes. A perseguição do Batmóvel por policias foram feitas com miniaturas nas cenas no telhado e com dublês nas de rua. Procura emular a mesma tensão que as imortais cenas nos filmes Bullitt e Operação França , protagonizadas por Steve McQueen e Gene Hackman respectivamente.

Os cenários foram construídos e pouca computação gráfica foi utilizada. Muitas cenas foram filmadas em Chicago e complementadas com algumas tomadas de Nova York. Pela primeira vez Gotham City é sombria e suja. Diferente do filme de Tim Burton ( Batman , 1989), em que Gotham até é sombria, o bairro miserável lembra numa comparação tupiniquim uma Ipanema poluída. No filme de Nolan o lado pobre é uma verdadeira “Cidade de Deus”. O Asilo Arkham está justamente localizado nessa parte de Gotham, remetendo o mesmo contraste entre o Bronx e Manhattan. Tudo é precário e fidedigno.

Quem teve a oportunidade de conhecer o lado podre de Chicago e Nova York, sabe como é assustador perambular em seus becos e ruelas intimidantes. A figura de um morcego gigante e ameaçador completa a paisagem soturna de Gotham City. As cavernas subterrâneas, onde foram feitas as fundações da imponente residência dos Wayne são as mais autênticas possíveis. Nunca o universo do herói foi tão bem retratado e verossímil. Um filme feito para adultos em que figurinistas, roteiristas e cenógrafos também beberam nas fontes iluminadas de Frank Miller e seu Ano Um – minissérie que conta os primórdios do Homem-Morcego. Percebemos também em Batman Begins um pouco da estética do Cavaleiro das Trevas , a obra-prima definitiva sobre Batman de Frank Miller. Ambas as séries de Miller se tornaram obrigatórias para qualquer apreciador de quadrinhos, independente de ser sobre o Batman.

Tudo isso é preenchido por uma trilha sonora envolvente. A música de Hans Zimmer e James Newton Howard concentra-se na dor, deixando de lado o espetáculo, marca registrada nas trilhas de seus antecessores nos outro filmes sobre o herói. Suas composições parecem ter sido escritas para uma ópera. São carregadas de emoção, mas sem nunca soar piegas. Nesse jogo cênico de imagem e som, a fotografia escura e melancólica com tons pálidos de Wally Pfister é enfatizada. A opressão expressionista do cinema alemão se faz presente. Asilo Arkham, Mansão Wayne, Wayne Tower são exemplos edificantes em que não só Bruce Wayne, mas os cidadãos de Gotham estão presos numa metrópole condenada ao caos. As imagens feitas na Islândia (representando o Himalaia) também oprimem, mas contrastam com Gotham por seus vastos espaços abertos. Isso tem uma representação metafórica na relação entre Batman e Ra’s al Ghul. Eles estão mais próximos do que se imagina. Pequenos detalhes e modo de agir separa os dois guerreiros.

O entusiasmo criador não se concentrou apenas no universo do próprio Batman, mas também de onde vieram as primeiras idéias sobre o seu conceito. Christopher Nolan e David S. Goyer, responsáveis pelo roteiro, fizeram uma bela homenagem a uma das fontes inspiradoras de Bob Kane. Os pais de Bruce Wayne foram assassinados quando saiam de uma sessão de cinema do filme Zorro. Nolan e Goyer mudaram o cenário da tragédia. Colocaram o drama na saída de um teatro. Na encenação da peça encontramos a mesma máscara do vilão em The Bat , como também os fios de movimentação. Segundo Kane, The Bat, filme mudo expressionista, contribuiu para o visual do morcego. Pequenos detalhes parecidos como esse, foram distribuídos ao longo da narrativa por Goyer, que já revelou ser um apaixonado por quadrinhos. Até ano passado tinha mais de 7000 revistinhas sobre personagens diversos em sua coleção.

Batmaníacos podem ficar ligeiramente decepcionados

Como sempre, algumas modificações foram feitas. Querendo ser o mais real possível, Christopher Nolan mudou alguns detalhes na iconografia do morcego. Tive a oportunidade de conversar com ele e com ator Christian Bale e, descobrir as razões de suas mudanças. Se Henri Ducard , nos quadrinhos, era responsável em ensinar a Bruce Wayne as suas excelentes técnicas de detetive, no filme de Nolan ele é responsável por quase todo o treinamento do herói. Não só físico, mas também emocional, usando o medo e a culpa de Wayne para transformá-lo num grande guerreiro. A idéia de Bruce Wayne ter aprendido tudo que sabe com os maiores especialistas foi descartada. Segundo Nolan isso seria humanamente impossível, mas ele afirma que isso ainda pode acontecer nos próximos filmes.

Ra’s al Ghul perde todo o seu charme num primeiro momento. Chega a ser decepcionante o desperdício do ator Ken Watanabe num papel tão fascinante. Isso será solucionado mais perto do fim. É até lógica a solução, mas extermina com a mitologia de Ghul. Poço de Lázaro? Imortalidade? Num filme real, nem pensar. Alguns fãs ainda criaram uma teoria que no filme de Nolan ele não seria imortal, mas um espírito que teria a capacidade de possuir outras pessoas. Assim ele poderia ser imortal como nos quadrinhos. Nolan achou interessante alguns fãs embarcarem nessa, mas definitivamente essa não é a onda certa. Mas, segundo ele, quem sabe isso pode ser aproveitado.

A origem do Espantalho , o Dr. Jonathan Crane, foi modificada, mas não chega a atrapalhar. O que incomoda é a sua participação pífia. Inclusive o seu destino com a promotora Rachel Dawes poderia ser cortado do filme por ser patético. Rachel é outro caso que ganhou maior destaque que o necessário. Ela não existe nos quadrinhos, mas foi levemente inspirada em Rachel Dodson , filha de um homem vingativo em Batman: Ano 2 , que assume a identidade do Ceifador. Ela está lá, pois todo herói precisa de um par romântico. Aumentaram a sua participação para não parecer decoração “interpretativa”. Lucius Fox foi promovido a inventor. Isso até foi uma ótima solução para explicar como Bruce Wayne consegue tantas geringonças sofisticadas. Tendo uma empresa do porte da Wayne Enterprises por trás do Batmóvel, batroupa e bataparelhos fica verossímil e explicativo. Isso lembra a ótima mudança no filme Homem-Aranha, em que colocaram a teia como parte do metabolismo do herói, e não uma invenção de um adolescente de 17 anos.

Poderia enumerar outras mudanças, mas são ajustes que auxiliam a transposição dos quadrinhos para a telona. Uma coisa que perturba são os longos vôos do Morcegão . Nolan acha mais possível aquela capa que vira “asa delta” (acionamento eletrônico pela luva), do que uma porção de cordas no cinto de utilidades. Se usasse só fios, Batman não teria a mobilidade necessária. Pode até ser. Mas as brigas contra os bandidos são um ponto negativo. São confusas e chega a dor de cabeça para quem quer entender o que está acontecendo. Segundo Nolan, isso retrata uma certa áurea de mistério. Também se apóia que a estética dos filmes de Hong Kong, exploradas em Matrix , e as lutas digitais em Senhor dos Anéis , Homem-Aranha e Star Wars fugiriam da realidade. Não queria um Batman em CGI, por isso fez cortes rápidos em close. Pode até soar mais verdadeiro, mas acaba tirando de Batman o conceito de filme espetáculo. Nolan, apesar de ter feito o melhor filme sobre o personagem e ter aberto a franquia de novo, não conseguiu superar a X-Men 2 e os filmes do Aranha . Ambos tinham substância como Batman, mas conseguiram ser excelentes nos combates.

Batman Begins é um ótimo filme sobre o universo dos super-heróis, mas ainda precisa de alguns ajustes. Agora resta saber se o público irá preferir as versões anteriores, autorais, mas pouco convincentes, ou a concepção inicial. Até então, os filmes tem sido interpretações e variantes que infelizmente inventaram um híbrido do Morcego original. Batman Begins resgata sua linhagem e devolve a couraça original do Cavaleiro das Trevas, a mesma que vem sendo editada nos quadrinhos desde o seu surgimento em 1939. E se for pela cabeça do ator Christian Bale, os vôos do morcego deveriam ser ainda mais ousados. Ele disse que o segundo longa-metragem deveria ter duas versões do mesmo filme. Uma mantendo a proposta de Batman Begins e outra com muito mais violência e sangue, que seria direcionado para o público inteiramente adulto. Uma sugestão digna de um interno do Asilo Arkham, mas que seria a catarse de qualquer fã do Cavaleiro das Trevas.


Leia também:

Dark Knight | Crítica

Batman Begins | Crítica

Dark Knight | Christopher Nolan fala tudo sobre o filme

Dark Knight | Seria Batman um gay?

Dark Knight | A série dos anos 60

Dark Knight | Quem já foi Batman

Dark Knight | As séries animadas

Dark Knight | A série que virou Smallville

Dark Knight | HQ O Cavaleiro das Trevas – Resumo

Dark Knight | O Batman de Tim Burton – Resumo

Dark Knight | Batman – O Retorno – Resumo

Dark Knight | Batman Forever – Resumo

Dark Knight | Batman & Robin – Resumo

Dark Knight | Batman Begins – Resumo

Publicado em Filmes | 7 Comentários

7 Comentários
1 marcelle cristina diz:
há 3 anos e 9 meses

esses foran as melhores propagandas que ja teve e dezenhos e coisas sobre o batman mais legais.

2 Main diz:
há 1 ano e 10 meses

Nubagene soma online, wucuqb, Britanthor

3 Visit diz:
há 1 ano e 10 meses

Xanonova order zolpidem, craig, Germadum

4 Homepage diz:
há 1 ano e 10 meses

Atlacand fioricet, 200, Ebatea

5 My page diz:
há 1 ano e 10 meses

Austrand alprazolam, vans, Dalynus

6 jYaYsoji diz:
há 1 ano e 9 meses

gZrRdO

7 a great read diz:
há 1 ano e 8 meses

yes i like it very much

Comenta aí, nerd!

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*