300 | Crítica
| sábado, 7 de junho de 2008 | Mário "Fanaticc" Abbade |
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Do que é feito um herói? A melhor definição pode ser encontrada em 300 do cineasta Zack Snyder, versão cinematográfica dos quadrinhos “Os 300 de Esparta” (1998), de Frank Miller. Conceitos como honra, glória e coragem são o combustível para um filme eletrizante. A história é baseada na batalha que aconteceu no desfiladeiro das Termópilas por volta de 480 a.C. O combate é até hoje motivo de estudo por historiadores e militares como um símbolo de resistência e preserverança por parte dos gregos contra os persas. A peleja se tornou lendária por causa dos números tão díspares entre os dois lados envolvidos no conflito.
E de como 300 espartanos comandados pelo rei Leônidas enfrentaram os milhares de persas chefiados pelo rei Xerxes da Pérsia. Mas não espere um relato histórico sobre o fato. A versão de Miller e Snyder compartilha em parte dos escritos apaixonados (bota apaixonado nisso) de Heródoto, tido como pai da História. Fica claro que o objetivo aqui é entreter, apostando no público que é fascinado por vídeo-game, quadrinhos e adora sentir altas doses de adrenalina. Toda a narrativa foi construída dessa forma. A dramaturgia foi substituída por um apanhado de cenas arrebatadoras envoltas por diálogos e frases de efeito, que seriam um sucesso garantido se fossem estampadas em camisetas.
Propositalmente as interpretações são exorbitantes. Gerard Butler interpreta Leônidas dizendo as frases com bastante eloqüência, da maneira que o papel exige. Seus comandados seguem pelo mesmo caminho. David Wenham faz Dilios, guerreiro e contador de histórias. Ele também narra o filme. Outros que chamam a atenção no exército espartano são os personagens Capitão (Vincent Regan) e Stelios (Michael Fassbender). Destaques também para Lena Headey como a rainha Gorgo, esposa de Leônidas e Rodrigo Santoro transfigurado no papel de Xerxes. Vale dizer que todo o elenco está a serviço das cenas de violência descomunalmente estilizadas. Tudo é exagerado ao extremo. Mas não entenda essas características como um defeito. O filme funciona por causa disso. Essa hipérbole visual e sonora traduz com perfeição o que é ser um herói na cultura pop. É justamente isso que nos faz, mortais, sonhar em se tornar um deles.
Diretor Zack Snyder soube capturar com perfeição esse sentimento. Se em “Sin City”, outra obra de Miller adaptada para a telona, diretor Roberto Rodriguez nos presenteou com quadrinhos em forma de filme, Snyder foi mais longe. Ele realizou um filme em forma de quadrinhos. Cada frame ganhou essa característica. Snyder fez uma reinterpretação criativa da obra de Miller. Várias seqüências nos remetem as cenas desenhadas na revistinha, mas com uma combinação de fatores criados por Snyder. Ele usou a trama de Miller como um esqueleto de sustentação, a preenchendo com uma visão autoral. Quem assistiu a “Madrugada dos Mortos”, refilmagem realizada por Snyder de um clássico filme de zumbis de George Romero, perceberá seus maneirismos. Visualmente 300 nos remete a uma ópera wagneriana de proporções épicas.
Alguns poderão ficar incomodados com todo esse aparato visual sem substancia. Analisar dessa forma é um erro. Se procurarmos, vamos encontrar vários subtextos pouco agradáveis, mas que enriquecem o filme tematicamente e que dariam debates interessantes. Da mesma forma que nos quadrinhos, o filme também tem racismo, misoginia, homofobia e narcisismo. O bacana que esses preconceitos são acompanhados com outros que destroem o próprio preconceito. Um exemplo disso são as cenas homoeróticas desconstruídas pelos diálogos homofóbicos. Outros irão encontrar um paralelo com a nossa realidade, como a guerra do Iraque. Só que fica difícil determinar quem é quem. Os norte-americanos podem ser vistos tanto como o império conquistador do mal, como o defensor da democracia e liberdade. Esses contrastes demonstram que existe vida inteligente por trás da trama.
Outro grupo que não deve ficar satisfeito são os historiadores. A versão mais aceita pelos estudiosos é que o rei Leônidas comandou 7 mil homens de várias cidades gregas contra um exército de quase 100 mil soldados de diversas nacionalidades chefiadas por Xerxes. Foram 3 dias resistindo a todas as investidas dos persas. Isso foi possível por causa da estratégia de usar os estreitos penhascos para invalidar a vantagem numérica dos oponentes, como também o armamento dos gregos.
Seus escudos eram de madeira, couro e bronze, diferente dos persas que eram de vime e couro. As lanças gregas tinham de 2 a 3 metros e com isso estocavam o inimigo à distância. Suas espadas tinham 60 cm, as dos persas eram mais curtas. As vestimentas de combate dos gregos eram compostas de perneiras de bronze, capacete e couraças de metal nos braços, bem diferente dos persas que não tinham nenhuma proteção. O que acabou ajudando aos persas foi a traição de Efialtes. Ele era um pastor que conhecia uma trilha de cabras e levou os persas para a retaguarda dos gregos. Eles conheciam esse caminho, mas a força de defesa deixada nesse local não conseguiu impedir o avanço dos persas. Ao saber que o inimigo iria flanqueá-lo, Leônidas ordenou que seus soldados se retirassem, mas se manteve firme esperando seu destino ao lado de 300 soldados espartanos, 600 téspios e 400 tebanos que desertaram na hora do combate. Foram massacrados.
Mas todo o conflito acabou gerando uma descrença por parte dos persas. Eles começaram a questionar se mesmo em um número bem maior teriam capacidade de vencer os gregos. Ao mesmo tempo, Leônidas e seus 300 garantiram o tempo necessário para que o país se organizasse para enfrentar Xerxes. Os persas foram derrotados de vez na batalha de Platéia, por um exército grego sob o comando do general Pausânias, sobrinho de Leônidas, e desistiram de conquistar a Grécia. Vale dizer que os atenienses derrotaram o poderio naval de Xerxes nos arredores da ilha de Salamina.
Mas as licenças poéticas que mais poderão incomodar aos estudiosos não serão essas. E sim alguns absurdos criados para tornar a trama mais apaixonante. O personagem Theron (Dominic West) não existe, por conseguinte a sua relação com a rainha Gorgo também não. Os ephors eram oficiais eleitos e não um grupo de monges deformados. Efialtes (Andrew Tiernan) não traiu os espartanos por ser um deformado que foi excluído por Leônidas.
Ele era um simples pastor de cabras que se vendeu por dinheiro. Leônidas acusa os atenienses de pederastas, mas era comum na sociedade espartana uma relação homoerótica. Em sua cultura, esses guerreiros faziam a separação total entre sexo por prazer e para reprodução. O homem espartano só podia ter relação com mulheres após os 30 anos. Idade na qual já tinha provado seu direito de se reproduzir. Enquanto isso não chegava, só era dado permissão para realizar sexo com outros homens. Se não conseguisse engravidar e montar uma família, podia casar-se com um companheiro de armas. Isso ajudava muito nas guerras, pois assim o guerreiro lutava ao lado de um amante e não de um desconhecido. Os espartanos também são retratados como os defensores da liberdade, mas era a comunidade mais brutal de toda a Grécia. Eles não praticavam suas técnicas de combate em criaturas como o lobo mostrado no filme, mas sim em seus servos. Eles eram uma sociedade infanticida, autoritária e fascista.
Um outro tema complexo é o eterno embate entre Leste e o Oeste. O próprio Miller disse que só escreveu os quadrinhos, pois assistiu ao filme “Os 300 de Esparta” (1962) quando criança. Já nessa produção era nítida a representação dos norte-americanos como os espartanos e os soviéticos como os persas. Estávamos na Guerra Fria e o cinema também sofria influências. Hoje em dia, qualquer filme que apresente um conflito entre civilizações do oeste e do leste, tem a tendência de personificar os norte-americanos com os europeus ocidentais de um lado e os terroristas islâmicos do outro.
Em 300 o oeste é retratado como civilizado e belo. Os gregos são homens bonitos com dorsos perfeitos construídos a base de anabolizantes que lutam bravamente com espadas e lanças. O leste é mostrado como uma sociedade de bárbaros decadentes formados por árabes, africanos e asiáticos, que lutam covardemente com flechas e bombas. Seu líder, Xerxes, parece uma entidade andrógina depilada de 3 metros de altura com voz de trovão. Seus piercings e penduricalhos nos sugerem um indivíduo sadomasoquista. Isso é corroborado na cena em que Xerxes seduz Efialtes com seu harém de mulheres bissexuais. Algumas até deformadas. Na verdade, Xerxes era o típico muçulmano com barba, bigode e cabelo.
Mas não podemos esquecer que a proposta do filme não é essa. Não adianta sociólogos, psicólogos ou outros estudiosos procurar argumentos para desconstruir as idéias de Frank Miller e Zack Snyder. A produção pode até ser questionada por seus valores artísticos. E só. Mas mesmo os profissionais que analisam cinema não podem deixar de levar em consideração que os objetivos dos realizadores foram alcançados.
É inegável que 300 se comunica com dignidade com o seu público e não tenta ser uma coisa que não é. Isso explica o seu sucesso inesperado nas bilheterias e até com boa parte da crítica especializada.
O filme custou 65 milhões de dólares e já ultrapassou os 165 milhões no mercado norte-americano. Essas marcas impressionam quando se leva em consideração que o filme não foi feito para ser um blockbuster e foi lançado fora da temporada de verão estadunidense. A razão é muito simples. Seu escopo é divertir através do simples conceito do herói que não precisa ser premiado para se considerar um vencedor. Para isso investe nos valores básicos e primordiais desse arquétipo. Coisas como a bravura e a honra. Obviamente seguindo a fórmula de sucesso já usada em milhares de vídeo games e revistinhas em quadrinhos espalhados pelo planeta.
Para transmitir seu conceito de herói, Frank Miller se utilizou de uma verdadeira carnificina visual de cores orquestrada nos mínimos detalhes. Poderia ter usado outras referências, mas ter exacerbado na violência foi um caminho e também uma maneira de torná-la superficial em relação à epístola. Recomendo esquecer a história e os preconceitos para embarcar na viagem. Até porque Miller tem o direito de contar a sua versão da lenda, usando os elementos que lhe convier. Se ao escrever o quadrinho, ele estava exorcizando seus próprios demônios, cabe a um psicólogo analisar isso, independente do filme. Por nenhum instante ele teve a pretensão de ser factual. Vale dizer que o cinema também não tem essa obrigação. Para isso já existe o History Channel.




sábado, 7 de junho de 2008 às 10:00 pm
PRIMEIRO!eu ainda nao assisti esse filme!aeehhh!