Entrevista com Steve Jackson
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Jovem Nerd: Senhor Jackson…
Steve Jackson: Apenas Steve.
Jovem Nerd: Tudo bem, Steve! O que inspirou a sua imaginação durante sua infância?
Steve Jackson: Leitura. Especialmente ficção-científica.
JN: Como Isaac Asimov?
SJ: Ele não era um dos meus favoritos. Eu li tudo o que pude pegar dele, mas… eu me concentrava em outros autores, especialmente revistas sobre o assunto.
JN: Algum filme inspirava você nessa época?
SJ: Não, eu não costumava ver filmes. Minha família não possuía uma televisão, e eu só fui ter uma TV durante a adolescência.
JN: Houve um momento particular em que você percebeu que iria dedicar sua vida aos jogos, em vez daquele trabalho diário entediante?
SJ: Não! (risos)
JN: Não?
SJ: Não… na verdade, eu caí nesta vida de escritor de jogos profissional totalmente por acidente. Uma coisa levou a outra, que levou a outra, e aí eu me vi onde estou agora.
JN: E quais foram suas maiores influências? Dungeons & Dragons?
SJ: Também não. Eu joguei D&D uma vez, quando estava na faculdade. Um amigo trouxe o sistema para mestrar para a gente, e acabamos não nos divertindo! (risos) Não por culpa do jogo, mas porque nenhum de nós sabia como jogar e principalmente mestrar uma mesa. O que ele acabou fazendo foi nos levar através de uma criação de personagens resumida, e então nos colocou numa aventura, que acabou se resumindo a isso:
“Então vocês andam pela floresta. E então vocês andam ainda mais pela floresta. Vocês acabam num acampamento de ladrões. Eles são mais numerosos, então vocês lançarão “Cloud Kill” neles. Eles morreram, então vocês irão revistar os corpos! E vocês encontram muitos itens! Tal aventureiro vai pegar tal item! E vocês andam pela floresta. E encontram mais ladrões!”
E aí, quando jogamos uma vez, foi o suficiente para nunca mais jogar. Mas anos depois, me deparei com o jogo novamente. O sistema estava mais maduro, as pessoas sabiam jogar e mestrar melhor, e finalmente tive diversão com D&D! Mas no início, ninguém sabia como interpretar. Demorávamos para aprender como usar tudo que tínhamos à disposição, e ser um bom mestre é muito mais difícil do que ser um bom jogador. Então eu não culpo o meu primeiro mestre, porque ele estava fazendo o melhor que podia. Ele estava se divertindo! Não deixa de ser um passo na direção correta.
Mas eu me tornei um escritor de jogos profissional muitos anos depois. Ainda foi por acidente. Eu vi um anúncio no jornal, que estava à procura de um editor de revistas. O interessante foi a palavra usada. Em vez de Magazine (revista), o anúncio dizia Zine. Na época, 25 anos atrás, a palavra era praticamente desconhecida, e na minha cabeça, isso quis dizer automaticamente que seria sobre ficção-científica. Então eu respondi a essa “mensagem secreta”, mas não consegui o trabalho! Eu era qualificado demais. O anunciante não esperava encontrar alguém que soubesse bastante sobre jogos. Então ele contratou outra pessoa para a vaga de editor, e me colocou como desenvolvedor de jogos.

JN: Mas você, antes disso, já havia desenvolvido um jogo por conta própria?
SJ: Não. Bem, houve uma experiência quando estive na faculdade, mas acho que isso não conta! (risos) Eu joguei muitos jogos, mas nunca me envolvi na criação de nenhum.
JN: Sua família esperava que você seguisse outra profissão? Como um advogado, talvez um médico?
SJ: Na verdade, eu estava na faculdade de Direito na época… então sim!
JN: E como a sua família reagiu a isso?
SJ: Eles ficaram felizes quando souberam que eu iria escrever.
JN: Você encontrou certos obstáculos na sua nova profissão? Pensou que, se estivesse em outra carreira, poderia estar com mais dinheiro, por exemplo?
SJ: É só enfrentar um obstáculo de cada vez. Se eu quisesse mais dinheiro, teria ido para a faculdade de Direito. E eu já tinha dinheiro o suficiente fazendo jogos, na verdade.
JN: Então você não estava apenas vivendo um sonho. Você estava de fato vivendo disso? Porque muitas pessoas sonham em pagar suas contas escrevendo. Nós do Jovem Nerd também publicamos livros, como A Batalha do Apocalipse, de um amigo nosso. Muita gente vem até nós e implora para que leiamos seus trabalhos, mas quando dizemos “OK, mostre para a gente” eles dizem que ainda não escreveram nada.
SJ: Exato! Mas não adianta tentar vivendo um sonho… sonhando. Você precisa trabalhar, precisa fazer o que quer fazer. Quer escrever? Então pare de sonhar, e escreva! Ninguém vai ler o que não existe.

JN: Quando você começa a escrever um jogo, qual é o passo mais importante a ser observado e trabalhado? São as mecânicas do jogo, ou o tema dele?
SJ: Eu começo com o tema. Não é uma regra, mas eu sempre começo assim. Nem todo mundo funciona desse jeito, já que alguns fantásticos escritores de jogos começam pela mecânica e só depois adicionam o tema. Mas eu nunca coloco a mecânica antes. Primeiro é o tema, depois eu penso como eu contarei a história, e aí sim eu desenvolvo a mecânica. Não é o estilo dos alemães, por exemplo, que criam toda a mecânica e depois adaptam um tema para o jogo.
Mas mesmo que um dia venha a acontecer de eu pensar em uma mecânica que eu goste muito, colocarei a idéia no fundo da cabeça até que surja um tema apropriado. Para mim, a mecânica é apenas uma forma para contar uma história.
JN: Qual é o maior desafio quando está se desenvolvendo uma mecânica? É o equilíbrio das regras?
SJ: O equilíbrio é importante. O equilíbrio percebido é ainda mais importante. Se todos que jogam acham que está tudo equilibrado e funcionando bem (o que quer que isso signifique naquele jogo em particular), se está claro o suficiente para que as pessoas entendam o que precisam fazer, é que importa.
Em Munchkin, por exemplo, nós adoramos a idéia de que os jogadores discutam sobre as regras. Mas estamos brincando!
JN: O elemento principal é a diversão, correto?
SJ: Sim! Se você, por algum acaso, está jogando um jogo por outro motivo que não seja diversão, fico feliz por você, mas eu não sei o que eu posso te oferecer. Sei que existem usos educativos para jogos, mas a maioria desses são arrastados e chatos, na minha opinião. O maior desafio para alguém fazendo um jogo educativo, é torná-lo divertido.
Algumas empresas já vieram me pedir para que eu criasse um jogo educativo para eles. Mas assim que eles descreviam como queriam o jogo, eu já não queria fazer, porque eles arrancavam de primeira toda a diversão.
JN: A Steve Jackson Games produz Card Games, jogos de tabuleiro, e jogos de RPG como GURPS…
SJ: …e jogos de dados, e aplicativos, e muito mais!
JN: Qual o tipo de jogo mais complicado ou mais desafiador de se fazer? Porque em um RPG você precisa criar um mundo, um cenário, e um Card Game você não tem toda essa exigência.
SJ: Eu não penso nos jogos como “complicados” ou “desafiadores”. Eles são todos diferentes. E de certo modo, alguns jogos são mais diferentes mesmo dentro do mesmo tipo. É difícil de generalizar. O que você quer dizer com “desafiador”?
JN: Imagino um livro de RPG, onde você precisa equilibrar tantas coisas, entre grandes e pequenas, por exemplo. Mas como você mesmo disse que o tema é mais importante que a mecânica, penso que você primeiro cria todo o tema, e depois procura imaginar se aquele é um Card Game, ou um RPG, e assim por diante. É assim que funciona o seu processo criativo?
SJ: Normalmente eu já fico com um tema na cabeça, e desenvolvo a partir disso. Quando eu criei Cthulhu Dice, eu sabia que seria um jogo de dados, desde que eu imaginei um jogo sobre Cthulhu. Eu queria fazer um jogo com um grande e brilhante dado, com símbolos mágicos nele, e eu imediatamente me sugeri Cthulhu, e foi a partir disso. Não precisava ter ido por esse caminho, poderia ser sobre outros símbolos, outras criaturas. Não precisava nem mesmo ser um dado de 12 faces, mas eu decidi usá-lo porque é um maravilhoso dado que não é usado muito.
JN: Você acha que jogos eletrônicos tem tirado as pessoas da cultura dos jogos de mesa?
SJ: Sim! Porque é uma outra forma de jogar, e é uma nova forma de jogar. É claro que está tirando a atenção de outras fontes, mas também está atraindo ainda mais pessoas para a idéia de “jogos” em geral. Eu gosto de jogos. Não vou ficar revoltado por existirem outras pessoas jogando outras formas de jogos. Eu direi: “Beleza! Mais jogos!”
JN: Como um jogador, do que você gosta de jogar?
SJ: Eu gosto de muitos tipos diferentes de jogos. Falei anteriormente sobre os diferentes tipos de jogos que a Steve Jackson Games produz, e eu sou desse estilo. Gosto da variedade. É um dos motivos pelo qual trabalhei com GURPS antigamente, porque tornava uma variedade de histórias algo mais acessível. O que eu pensei é: criar uma série de regras única, onde você pudesse criar a história que você quisesse, na época e mundo que você quisesse, sem trocar de sistema.
Isso veio depois da segunda leva de RPGs. Quando surgiram os diversos imitadores de D&D. Obviamente, nenhum deles sobreviveu, porque eram muito parecidos com D&D, e não tinham o apelo do original. Era mais fácil jogar D&D de uma vez.
O problema na época era que, quando você queria jogar em uma nova ambientação, tinha de aprender todo um sistema novo de regras. Era muito chato se você queria jogar coisas diferentes. Eu disse “dane-se” e fiz o Sistema de Regras Universais e Generalizadas, o GURPS, que chegou na terceira leva de RPGs.
JN: Alguma dica para jovens aspirantes a desenvolvedores de jogos?
SJ: Jogue muitos jogos (você não precisa jogar todos eles). Ninguém tem tempo hoje em dia para jogar tudo, e isso é maravilhoso. 25 anos atrás, eu diria “jogue tudo o que existe”, porque existiam pouquíssimas opções.
Jogou bastante? Então escreva alguma coisa. Teste. E escute seus “Playtesters”. Depois, vá pra casa e reescreva tudo.
JN: Muito obrigado! Ainda vai querer um café?
SJ: Eu que agradeço. Para falar a verdade, aprendi a gostar de café aqui no Brasil…





























Rapaz! Como o Steve Jackson emagreceu! Deve ter feito a mesma dieta do Peter Jackson. Quando ele esteve no Rio durante a RPG Rio de 90-e-alguma-coisa ele era o dobro do tamanho. Acho que voces deveriam ter perguntado sobre a dieta!
Muito bom!
ps: Na resposta do SJ sobre o Isaac Asimov, logo no início. Ta escrito: “JN: Como Isaac Asimov? SJ: Ele não era um dos meus favoritos. Eu li tudo o que pude pegar dele, mas… eu me concentrava em outros ATORES…”
É atores mesmo ou era pra ser autores?
Parabéns JN pela excelente entrevista!
Parabens, fez só pergunta pertinente. o/
e a criogenia JN?!
pq n perguntou?!!! eueuheeuh
Muito boa a entevista.
Joguei e li muitas coisas do sr. SJ mais novo… É um grande ídolo pro mim.
@Malkneo É ator mesmo, não assistiu nenhum dos filmes que ele estrelou?
quero que toda a equipe do JN saiba que alguém está orgulhoso pelo caminho que estão trilhando , entrevista de valor .
é só o começo .
GURPS é meu sistema favorito! Ótima entrevista JN!
Abs
Ótima entrevista JN, parabéns!
GURPS é meu sistema predileto. Conheci e comecei a jogar RPG com ele. Parabéns pela entrevista! (Faltou perguntar se GURPS tem mesmo regra para cavar buraco…).
EXCELENTE! Jn, mandaaste MUITO bem!
Meus parabéns! Concretizaste um sonho meu, entrevistar Mr Jackson (o Steve, não o Peter).
Abraços e sucesso! (mais ainda)
Meu sonho era entrevistar o MICHAEL Jackson. =/
além da pergunta sobre o Cyberpunk faltou a pergunta sobre a confusão sobre o nome dele e o autor do livro jogo
só faltou culhao pra perguntar do congelamento aushuahsua
Po, JovemNerd.. Legal a entrevista.. Mas acho que você poderia perguntar pra ele, como ele emagreceu tanto e qual a formula pra isso, já que quer emagrecer.. Deve ser de uma maneira mais agradavel, sendo que ele é nerd..
É… faltaram culhões para algumas perguntas.
Mas…. se o JN não teve, porque raios o Azaghal não perguntou?
Aaaahhh… não era ele que estava entrevistando…
ah-ham.. OK
Otima entrevista, sempre que leio sobre RPG aqui so me da mais e mais vontade de começar a jogar RPG de novo.
Parabéns pela entrevista, e foi muito legal ver partes dela em video no nerdoffice tmbm, adoro jogar GURPS, e jogo atualmente, sou fã do cara, valeu!
Caramba, deu muita vontade de jogar RPG agora. Faz eras que eu não jogo. De qualquer jeito, parabéns pela *tentativa* de ser um PRO-Interviewer meu caro JN ^^
Cara, é foda morar no interior aonde RPG ainda´e coisa do capeta se não coisa de nerd virgem babaca (não que eu não seja).
Bom, pelo menos RPG CON 2011, lá vamos nós.
GURPS é excelente, e o Steve Jackson é um mito ambulante. Ele parece ser bem sucinto, curto e direto, exatamente como o sistema, haha. Criador e criatura, fazer o que né?
JN, podia ter perguntando coisas mais cabeludas, por exemplo, por que desgraça o Low Tech demorou tanto pra sair, e veio com muito menos propriedade do que a sua contra parte (sobre tecnologia moderna). Ou o que ele achou do produto final do GURPS Characters em português, e se os fãs podem esperar mais material traduzido (i.e se a Devir, ou outra empresa, deu a entender que pretende trazer mais títulos pra cá).
Nossa cara! O Steve Jackson é foda!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Olhem tudo isso que ele inventou , isto é magnífico!
Parabéns Steve Jackson!
Só não perguntaram sobre o JOGO QUE PREVIU A NOVA ORDEM MUNDIAL né… Entrevista bem pertinente, só perguntou o conveniente!!!!
Só não perguntaram sobre o JOGO QUE PREVIU A NOM né… Entrevista bem pertinente, só perguntou o conveniente!!!!
Pô Alottoni, você podia ter ousado mais e perguntado sobre a polêmica do jogo “INWO – Illuminati: A Nova Ordem Mundial”, em que supostament o Steve Jackson prevê até o 11/09/2001!
Só para relembrar: em 1990 ele recebeu uma visita de surpresa do Serviço Secreto, que tentou fazer de tudo para tirá-lo de circulação e impedi-lo de lançar o jogo;
Pô, eu doido para achar alguma informação sobre esse fato do jogo”INWO” e vocês tiveram a oportunidade de perguntar e não fizeram ou não publicaram sei lá. Mas foi uma pena, ficaram só na nerdice mesmo.
vcs poderiam ter perduntado se naum teria como voltar a traduzir o Munchikin, q no Brasil foi extindo
Parabéns pela entrevista, bastante divertida e inspiradora!!!
Não tenho nada a dizer, GURPS é foda.