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One, Two, Three, Four!

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Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 Daniel John Furuno

Tá legal, tenho que admitir que foram também os olhos absurdamente azuis da Zooey Deschanel… Mas o que me cativou de verdade naquele trecho de Quase Famosos (2000), a obra-prima do cineasta Cameron Crowe, foi a situação em si. Prestes a sair de casa, Anita, a personagem interpretada por Zooey, segura William, seu irmão mais novo, pelos ombros e vaticina: “Um dia, você será cool”.

E, tal qual um oráculo, além da profecia, ela oferece ainda uma pista: “Olhe debaixo da sua cama; vai te libertar”. Depois que a irmã parte, o garoto faz exatamente o que ela sugeriu e encontra uma bolsa cheia de LPs. Num tributo aos seus ídolos (e, provavelmente, à sua própria juventude), Cameron Crowe nos mostra as mãos do pequeno William passeando pelas capas dos discos – Jimi, Hendrix, Led Zeppelin, Cream, Joni Mitchell, The Who… –, sugerindo uma relação física, tátil com a música.

Quando meu irmão mais velho saiu de casa para cursar uma faculdade no interior de São Paulo, não houve uma despedida assim dramática – seus LPs, no entanto, ficaram sob meus cuidados, como uma herança. Ele já havia me iniciado no rock, através dos Titãs, do Ultraje a Rigor e da Legião Urbana, mas foi sozinho, durante aquele período, descobrindo os discos que até então não conhecia, que eu de fato me apaixonei pela música.

Um álbum que me chamou a atenção logo de cara trazia na capa uma foto em preto e branco de quatro sujeitos encostados numa parede de tijolos, trajando tênis, jeans rasgados, camisetas e jaquetas de couro. Era Rocket To Russia (1977), dos Ramones.

Aquelas quatro figuras não combinavam com a idéia que eu tinha de punk – que, na minha cabeça, obrigatoriamente incluía cabelo moicano, alfinete no nariz e um ar ameaçador. Os Ramones eram apenas… Esquisitos. O som tampouco era a barulheira furiosa que eu esperava – na verdade, era um rock básico, que lembrava o dos anos 50 e 60, só que tocado de maneira mais suja e tosca.

Apesar da simplicidade (ou por causa dela), aquelas canções grudaram no meu ouvido e, antes mesmo de aprender sobre a história do punk, tive uma demonstração prática do espírito do it yourself – eu ainda nem conseguia fazer uma pestana no violão, mas consegui tirar Sheena Is A Punk Rocker. De repente, eu me dei conta de que realmente podia tocar.

Talvez a época da minha vida em que isso aconteceu (a adolescência) tenha contribuído. Mas o fato é que, para mim, nenhuma outra banda ou artista foi tão aglutinadora quanto os Ramones. Se alguém na escola tinha o vinil do então recém-lançado Brain Drain (1989), logo fazia cópias para os outros; enquanto isso, o resto da molecada se mobilizava para conseguir os discos mais antigos, como Leave Home (1977), Road To Ruin (1978) ou Pleasant Dreams (1981). Lembro da emoção de ouvir Loco Live (1992) em CD e, mais tarde, de juntar uma turma para ir de ônibus até a Pompéia para comprar os ingressos para o nosso primeiro show dos Ramones, no finado Olympia.

Mal podia imaginar que, anos depois, eu teria a oportunidade de acompanhar uma passagem de som da banda. Na ocasião, pude perceber o quanto Johnny era realmente o “chefe”, dando instruções e gritando com o técnico da mesa, enquanto os outros mal abriam a boca.

Naquela tarde, cruzei com o guitarrista no backstage e ele, mal encarado, fingiu nem notar minha presença. À noite, assisti ao show quase em cima do palco e vi de perto a velocidade de Marky na condução; as palhetadas inacreditavelmente constantes de Johnny; o “aditivado” C.J. com o nariz sangrando; e a figura bizarra e ao mesmo tempo poderosa de Joey.

A fascinante trajetória do quarteto é muito bem retratada no documentário End Of The Century (2005), dirigido por Michael Gramaglia e Jim Fields, e lançado em DVD no Brasil pela Warner. O filme traz entrevistas com todos os integrantes da banda (do trio original – Johnny, Joey e Dee Dee – até o “caçula” C.J., passando por Clem Burke, do Blondie, que chegou a tocar em alguns shows, usando o nome “Elvis Ramone”) e depoimentos de empresários, produtores, executivos da indútria e admiradores famosos (numa galeria que inclui Kirk Hammet, do Metallica, e John Frusciante, dos Chili Peppers).

Mas ao invés de mostrar a história dos Ramones disco a disco, o documentário concentra-se no perfil de cada músico, na tumultuada relação entre eles e, principalmente, em seu legado – como um bando de losers, contrariando todas as expectativas, conseguiu promover uma verdadeira revolução musical e – por que não? – cultural.

Reza a lenda que Dee Dee passou a fazer sua famosa contagem antes de cada música para imitar I Saw You Standing There, dos Beatles (que começa justamente com um “one, two, three, four!” gritado por Paul McCartney). Ao longo dos anos, os Ramones passaram de fãs a ídolos, inspirando gerações e gerações de moleques que aprenderam que não é preciso ser um galãzinho ou um músico virtuoso para empunhar uma guitarra.

E que até o mais esquisito dos sujeitos pode se tornar cool. Ou, como resumiu Joe Strummer, do The Clash: “Acho que os Ramones deram aos jovens do mundo todo um bocado de amor-próprio”.

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32 COMENTÁRIOS

  1. Endless Nameless diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 12:48 pm

    Muito legal essa matéria!
    Ramones é sensacional! Ao mesmo tempo instintivo e até belo, poético!

    Dá quase pra dançar nas músicas deles!

    Nada pra mim representa mais o “do it yourself” do que os Ramones, pois o som deles era simples, um pouco sujo, mas simples. Como se não tivessem compromisso com nada, só com a diversão. Não eram politizados, nem levantam (ou queimavam) bandeiras, ou se obrigavam a tocar musica pesada. Eram simplesmente “The Ramones” (lembrando sempre do Seu Madruga como “Ramone que era do Ramones e não sabia!”)

  2. Will Sparrow diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 1:01 pm

    Quando comecei a ouvir pra valer metal (idos de 1997, no alto dos meus 13 anos), achei que iria me afundar única e exclusivamente naquele meio. Até que, por incrível que pareça, ouvi um trecho do LP “Mondo Bizarro”, principalmente “Poison Heart”. Lembro até hoje: pedi a um amigo para me fazer uma cópia em fica cassete daquele LP. Eu ainda tenho essa fita, creio eu, só não sei onde.
    Ramones foi uma banda que, novamente, me abriu a novos horizontes. Ainda ouço muito metal, mas graças a eles, ouço muitas outras coisas até hoje. Hey, Ho, Let’s Go!!!

  3. Beikom diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 1:44 pm

    Ramones me salvou do rockinho brasileiro!

  4. Marcos Ramone diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 2:08 pm

    CARACAAA!!

    Muito phoda mesmo!!
    Tu ta de parabens Daniel!!

    Ramones e Ramones!!! Essa banda mudou minha vida para melhor!!
    Quando montei minha banda (Peter Punk) eles foram e ainda sao nossa principal influencia… os caras eram phodas!!

    GABBA GABBA HEY!!

  5. Tácito diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 3:34 pm

    ONE, TWO, THREE, FOUR!!!

  6. Fernando Russell diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 3:36 pm

    Cara, eu tava nesse show em que o CJ estava com o nariz sangrando. Show do Ramones sempre tem história. Nesse, eu conheci uma garota na loja do meu tio e me lamentei com ela que não tinha grana para ir ver o show. Para meu espanto, ela não só respondeu que ia no show, como falou que era super fã e que iria de graça, pois o primo dela era tenente da Polícia Militar e ia botar ela para dentro. Para completar meu dia ela disse: você quer ir comigo? E assim fui ao meu primeiro show do Ramones. Fomos escoltados pela polícia até o lado do palco. Quase podia encostar minhas mãos na guitarra do Johnny e ouvia com extrema estranheza a menina gritar LIIIINDO!!! para o Joey. Ela realmente era muito fã!

    O segundo show também foi irado! Foi o último show do Ramones no Brasil e fui com vários amigos. Cuspi no Supla, que abriu o show com o Psico 69 e briguei com os carecas que tentavam matar meu irmão mais novo!

    Como disse Tim Armstrong certa vez: Nunca existiria um Rancid se não tivesse existido o Ramones! Até hoje toco Rockaway Beach, KKK took my baby alway e Rock n’ Roll Radio toda vez que me junto aos amigos para tirar um som.

    Ramones é muito foda, apesar de não ter nada demais.

  7. Fernando Russell diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 3:40 pm

    Um adendo:

    Meu primeiro contato com Ramones foi com Brain Drain, que eu tinha gravado em K7. Depois, achei uma loja que gravava LPs e gravei uma fita metade Leave Home, metade Nevermind the Bolocks (Pistols). Na minha casa, é tradição todos os anos no natal tocarmos “Merry Christmas, I don’t to fight to night…” E pasmem, a música é tocada com a mesma fitinha K7 de anos atrás!!!

  8. Gin Guilt diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 5:42 pm

    Ramones eh minha banda favorita desde o momento que a conheci.Foi uma banda que me fez afundar no Rock,porque ate entao,eu nao ouvia nada de peso,e,hoje em dia,o Rock faz parte da minha vida como nada mais(a ponto de eu achar isso um problema).Nao tem como falar em um comentario o quao influente foram os Ramones na minha vida e como a figura deles funcionam como idolos pra mim.Ate hoje eu vasculho em sebos por seus LP’s,compro camisetas,escrevo textos teatrais,pesquiso coisas nosvas.Sabendo disso,uma coisa:me arrepiei lendo este texto.Mesmo.Parabens,e muito obrigado =D

  9. Kitsune diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 7:36 pm

    Adorei a matéria, sou muito fã de Ramones… e como o cara aí em cima falou: “Ramones me salvou do rockinho brasileiro!” É isso aí.

    GABBA GABBA HEY!!!

  10. Kitsune diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 7:47 pm

    Opa, eu de novo… Minha história é bem parecida com esse Gin Guilt, antes não ouvia muito rock, mas depois de conhecer Ramones, passei a curtir mais o estilo.
    Conheci Ramones num show de rock onde iam bandas iniciantes ou não, e tocavam rock e punk rock, até que uma hora uma banda tocou “Blitzkreig Bop”, adorei, só que não tinha idéia de quem era (pessoa sem cultura), foi aí que meu irmão me deu um toque “Você não conhece? É do The Ramones, uma das músicas mais famosas deles”, cheguei em casa e baixei um CD, e pronto, a.d.o.r.e.i.

  11. Douglas D.B diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 12:44 am

    Muito boa a coluna, parabéns!

  12. Jaime diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 8:10 am

    Muito boa a coluna, realmente os Ramones são uma daquelas bandas que marcou uma geração, e que a gente sabe que suas músicas nunca vão morrer.

    P.S.: Acredito que a música dos Beatles referenciada é “I saw HER standing there”, correto?

  13. Marco Gimenez diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 9:33 am

    eu fui nesse show do olympia….

  14. Marcelo Salgado diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 10:18 am

    Furuno,
    Bela coluna! Mesmo quem sempre torce o nariz para a simplicidade do punk rock tem de reconhecer a importância dele para o que veio depois. Também sou da turma que “teve um amigo que gravou um k-7 e tal”, mas nunca fui tão a fundo na experiência, talvez por achar que era uma música fácil e, por isso, ruim. Epic fail!
    Valeu para conhecer algumas coisas interessantes e relembrar outras!

    Marcelo Salgado

  15. Guija Matías diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 11:58 am

    Parei de ler em “a obra-prima do cineasta Cameron Crowe”.

  16. Luciana diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 6:35 pm

    AAAAAAHh eu amo

    hasudhasuihauishsuiadh

  17. QUEIROZ - São Gonçalo-RJ diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 8:37 pm

    Ramones é demais não é? “The KKK took my baby way. They took for me. They took my girl.” . “I wanna be sedated” “I don’t wanna grow up” “I wanna be your boyfriend” E por aí vai.

  18. Kashima diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 8:38 pm

    Fanstastico como todas as palavras, parabens ;D

  19. the door diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 7:55 am

    Nossa, até me emocionei.
    realmente ramones é foda, vou lá ouvir rocket to russia
    falow.

  20. Oby_VyNnIcK diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 9:28 am

    Cara…se não fosse Ramones e Green Day, eu ia tá escuntando Tuntz até hoje e achando legal…
    Comecei ouvindo Pet Sematary…e logo tava no The k.k.k. took my baby away…

  21. MrSpaceman diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 11:53 am

    Baralho, sempre me emociono quando me lembro do End of the Century…. RAMONES é muito foda.

    Gabba gabba hey!!!

  22. Loganx diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 6:03 pm

    Ramones é o básico do rock! Quem esta iniciando aconselho a ouvir!

  23. Emerson diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 9:50 pm

    Melhor banda, sem dúvidas.

    Gabba Gabba Hey!

  24. Naty diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 2:55 pm

    Amei
    Ramones pode não ser da minha época mas…
    a matéria foi 10!
    Rmaones tbm é mto bom!
    Parabéns

  25. Luciano diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 11:45 am

    C&*%¨&%& adorei a matéria. Ramones é sem duvida a maior banda de Rock da história. Também comecei a amar o Rock N’ Roll curtindo Ramones.
    Parabéns!!!

  26. Gley Riviery diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 10:49 am

    Texto bem legal, nada mais a comentar. Exceto o “mal encarado”. (9º parágrafo)
    :)

  27. Marco Antonio Rezende II diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 9:11 pm

    Prefeito meu caro Daniel, digo, perfeito! Conseguiu discrever o que todo fã de Ramones sente. Sou mais novo que vc, portanto não pude realizar um sonho meu, mas vc teve a oportunidade de ver os ramones ao vivo! um dia ainda vou trocar ideia com CJ e com Marky. rs
    Parabens pelo texto!
    abraços!

  28. Leandrover diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 1:31 pm

    Hey! Ho! Let’s go.
    Saio para correr e no mp3 tem o que pra dar aquele gás? Killers, Clash e Ramones.
    E os covers então: My way, It’s a wonderful world etc, são duca.

    The Best.

  29. Efraim diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 5:07 pm

    Serei sucinto…. DÚ KCT!!!!!!!!!

  30. Luh diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 4:24 am

    Muito bom o artigo :D Ramones tem uma música que quando toca é difícil ficar parado ^^
    Adoro a música Spiderman, além de ser fã do Homem Aranha :) Não sou nenhuma fã fanática, mas é uma banda que gosto muito de ouvir e isso que é o legal =)

  31. Ricardo - BOB diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 11:06 am

    Sem comentários. A melhor banda do mundo. Muito inspiradora… saudade do velho som punk

  32. Renatão diz:
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008 às 6:31 pm

    RAMONES… para mim é, simplesmente, a melhor banda de todos os tempos, pois influenciou toda uma geração com sua música, estilo e atitude. O Punk é um movimento de periferia, sem luxo, coletivo, crítico e rebelde, por isso os jovens se identificam com este estilo e Ramones sempre será lembrado como um ìcone deste movimento.

    HEY, HO! LET’S GO!!

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