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Steve Martin, Gérard Depardieu e… Seu Madruga?

Luke ficou fascinado pela princesa que ele viu apenas em um trecho de poucos segundos de uma projeção holográfica que nem ao menos lhe era endereçada.

Mesmo assim, cruzou a galáxia pra salvar a garota e, numa tentativa de impressioná-la, destruiu uma estação espacial do tamanho de uma lua. Só que o sujeito era tão c*gado que acabou descobrindo que ela era sua irmã. Gêmea. Mas isso, na verdade, não fazia muita diferença, já que a princesa, desde o começo, estava mesmo de olho era no contrabandista coreliano com jeitão de cafajeste.

Cada um tem o herói que merece… A ideia de que o nerd padrão é um loser que não tem sorte com as mulheres pode soar como um estereótipo ofensivo pra aqueles com pouco senso de humor, mas é preciso reconhecer que existe um fundinho de verdade aí.

Que o diga o Comic Book Guy, dos Simpsons, que, sentindo-se ameaçado pelo proprietário da nova loja de quadrinhos recém-inaugurada em Springfield, tenta desacreditar o concorrente: “Ele não é um de nós; ele tem uma namorada!”, acusa, em um episódio com as divertidas participações de Jack Black, Alan Moore, Art Spiegelman e Daniel Clowes.

Losers ou não, dá pra arriscar o palpite de que boa parte dos nerds já teve, em algum momento ao longo de suas incompreendidas e deslocadas existências, uma paixão platônica. Pode ter sido pela filha do vizinho, pela irmã do melhor amigo ou pela menina mais popular da escola; pode ter sido pela Natalie Portman com sotaque britânico (e sem cabelo) em V de Vingança, pela Natalie Portman com peruca rosa (e sem roupa) em Closer ou pela Natalie Portman com coques de Princesa Leia (e sem um papel decente) em A Vingança dos Sith.

Seja em filmes, seriados ou livros, é bem difícil abordar o amor sem cair na pieguice. E a coisa fica ainda mais complicada quando se trata das paixões platônicas, que são ao mesmo tempo trágicas (pela impossibilidade de sua consumação) e patéticas (pela mesma razão).

O maior desafio é justamente encontrar a dose exata de lirismo e humor – elementos que, quando mal misturados, podem ter resultados lamentáveis. O Didi Mocó, por exemplo, sempre me deixava com vergonha quando fazia aquela cara de sofredor por não conseguir conquistar a mocinha, como no final de Os Saltimbancos Trapalhões.

É bem capaz que seja só rabugice da minha parte. Ou talvez seja uma descabida expectativa de ver algo próximo da maestria de Cyrano de Bergerac, obra-prima do francês Edmond Rostand. Escrita no final do século 19 e inspirada em um personagem histórico (que teria vivido cerca de dois séculos antes), a peça teatral tem como protagonista um valente cadete do exército francês que é tão hábil com a espada quanto com a pena.

Cyrano é secretamente apaixonado por sua prima, Roxana, mas não tem coragem de se declarar por ser dono de um descomunal nariz que só não é alvo de chacotas porque o espadachim desafia qualquer um que se atreva a dele zombar. Roxana, por sua vez, está interessada em outro cadete, o belo Cristiano, que acaba de chegar ao regimento. Os sentimentos da donzela são correspondidos, mas o pouco inteligente novato não sabe como falar à amada. O narigudo vê aí a chance de, de algum modo, concretizar sua paixão, emprestando suas palavras ao galã pra, assim, formar “o herói duma novela”.

Cyrano é, sem dúvida, um dos personagens mais carismáticos da literatura. Difícil não se divertir com o monólogo no qual ele faz graça com o próprio nariz apenas pra ressaltar a falta de criatividade do sujeito que tenta insultá-lo. Difícil não torcer quando ele anuncia que, ao mesmo tempo em que duelará com um nobre petulante, irá compor uma balada (“com destreza eu me desloco / e vos previno, imbecil, / que ao fim da quadra vos toco”). Difícil não se comover com sua monossilábica reação quando Roxana lhe procura pra confidenciar um segredo – o “ah” que ele repetidamente balbucia passa da esperança de que a prima diga que o ama à decepção de descobrir que o objeto do desejo dela é Cristiano.

Rostand escolhe com precisão os momentos dos quais extrai ora comicidade, ora romantismo. É o caso da cena do balcão, que remete à de Romeu e Julieta, de William Shakespeare, mas que em Cyrano de Bergerac começa em tom satírico, com o nada talentoso Cristiano caindo em desgraça diante da amada, ao não conseguir dizer muita coisa além de “vos amo”.

O protagonista, então, entra em cena pra “salvar” o desafortunado cadete – primeiro, “soprando” os versos que o colega deve dizer; em seguida, declamando-os ele mesmo, tirando proveito da escuridão da noite, num dos trechos mais poéticos da obra. O autor ainda surpreende ao dar um desfecho totalmente prosaico e anticlimático ao dramático monólogo final do protagonista.

Como todo bom clássico, o apelo da peça é universal e atemporal e, por isso, ela é constantemente revisitada. Tem pra todos os gostos: há a fiel adaptação francesa pro cinema [1990], com um Gérard Depardieu magistral no papel-título (e, convenhamos, ele nem precisava de uma prótese nasal); há o livro A Marca de uma Lágrima [1985], esperta versão teen criada pelo escritor brasileiro Pedro Bandeira (que já concedeu uma entrevista exclusiva pro JN); há até mesmo um episódio do desenho Muppet Babies no qual Gonzo (e quem mais poderia ser?) ataca de Cyrano, recebendo a “assistência” de Steve Martin, em cenas tiradas do filme Roxanne [1987], outra adaptação moderna da obra, na qual o espadachim vira um bombeiro.

Isso sem falar no episódio do Chapolin em que o Vermelhinho ajuda um sujeito inseguro e ansioso antes de um encontro às cegas. O dono das anteninhas de vinil tenta tranquiliza-lo, contando a história de Cyrano (interpretado pelo Seu Madruga), Roxana (Dona Florinda) e Cristiano (o próprio Bolaños). O romantismo dá espaço, é claro, pra piadinhas infames acerca do nariz do espadachim (“Você é americano? Não nasceu no Narizona?”).

Um herói arquetípico pra Eduardo Spohr nenhum botar defeito; um enredo com pano de fundo histórico (os conflitos entre França e Espanha durante a Guerra dos 30 Anos [1618-1648] desempenham papel importante na trama); diálogos inteligentes com direito a easter-egg (a aparição-relâmpago de um mosqueteiro de nome D’Artagnan) e, pasmem, um toque de ficção-científica (o trecho em que, pra deter um nobre, Cyrano descreve sete maneiras de chegar à lua).

Tá legal, a linguagem arcaica, os versos dodecassílabos e o formato de “roteiro” podem assustar o leitor pouco familiarizado a esse tipo de leitura. Mas sobram motivos pra deixar os preconceitos de lado e dar uma chance a Cyrano de Bergerac. Afinal, ninguém quer ser um nerd padrão, não é?

35 Comentários
1 O_Saci diz:
há 2 anos e 5 meses

Na escola eu era um Cyrano orelhudo.

2 udinho diz:
há 2 anos e 5 meses

Caaaara, faltou citar o Maurício de Souza que também fez sua versão e pode ser lida online no site da Turma da Mônica: http://www.turmadamonica.com.br/comics/cebolo/welcome.htm

[Pra dizer a verdade, nunca tinha ouvido falar dessa história, mas quando comecei a ler, foi a primeira coisa que lembrei!]

3 Eduardo Libório diz:
há 2 anos e 5 meses

Parece muito boa. Pena que so achei pra download em inglês…

4 Matheus diz:
há 2 anos e 5 meses

ja li o livro do Cyrano quando era criança, é uma história foda…
esse ep. do chapolin é um dos que eu mais gosto !

5 Kverna diz:
há 2 anos e 5 meses

Muito boa a materia. Li o livro faz bem uns 10 anos, recomendo!

6 Marcelo Salgado diz:
há 2 anos e 5 meses

Furuno sempre genial. Sou fã dessa coluna. Belo retorno!

7 Etel diz:
há 2 anos e 5 meses

Adoro a história. Vi pela primeira vez em forma de desenho animado quando criança. Desde então sou apaixonada pela história.

8 AnGeL diz:
há 2 anos e 5 meses

Eu li Cyrano na escola, quando estava lá pela 7ª série. Quando eu vi aquele formato estilo roteiro e aquela linguagem arcaica eu pensei “xi, f#deu!”, mas depois que eu comecei a ler não parei mais, ^^.Junto com “O Alienista” está no topo da minha lista de “livros que eu li na escola e gostei”^^.

9 Corto Maltese diz:
há 2 anos e 5 meses

Cyrano é o melhor exemplo pra todo mundo que já se f¨&#** no amor. Perca a garota, não perca a piada.

O cavaleiro narigudo, de coração partido e língua afiada é um dos personagens mais fortes criados pela literatura.

10 Paulo Saracchini diz:
há 2 anos e 5 meses

Nossa! Tem uma referência a essa obra no jogo Baldur´s Gate II !!!

@ udinho
Muito boa essa historinha da Mônica!

11 Squivo diz:
há 2 anos e 5 meses

Um dos melhores personagens da minha vida, a primeira vez que vi foi na adaptação pra cinema e achei muito legal mesmo sem entender muito pela idade que tinha, a versão do Chapolin é muito boa também. Enfim, apesar de ainda não ter lido o livro é uma história muito legal e eu vou ler assim que possível.

12 A.J. diz:
há 2 anos e 5 meses

Na minha amada coleção de quadrinhos, um dos exemplares mais antigos é uma revista do Pato Donald que contém a história “Donald de Bergerac”. Me lembro que li essa história pela primeira vez com uns 5 anos de idade – e é claro que nessa época ainda não fazia ideia de quem era o tal Cyrano.

A HQ era protagonizada por Donald de Bergerac, espadachim que era apaixonado por Roxalane (Margarida) mas tinha que encarar a rivalidade com Gastão Fortunato.

13 Fabiano diz:
há 2 anos e 5 meses

Por falar em não perder a piada, eu acho muito engraçado quando vejo que algumas das minhas antigas paixões platônicas hoje viraram umas barangonas “impegáveis”.

14 Edgard diz:
há 2 anos e 5 meses

Só não entendi o que seria um “nerd padrão”… Ou será que nerd só lê HQ e livro de Fantasia/Ficção/Terror?

Os clássicos estão cheios de bons livros… mas indico a versão adaptada (cuja leitura é mais fácil) pra quem ainda não teve contato com a obra, pois é meio chatinho de ler no começo… mas depois que vc “entra” na trama, é dificil parar de ler…

Bom ver resenhas de obras desse porte no JN…

15 Cassio diz:
há 2 anos e 5 meses

Cyrano é uma história muito legal, me marcou bastante quando li a hq adaptada:

http://i194.photobucket.com/albums/z132/cibertron01/cuyrano.jpg

Acho que o V (de V de Vingança) resgatou muito do tipo de humor dele.

16 Silas Chosen diz:
há 2 anos e 5 meses

Excelente texto!

17 Flávia diz:
há 2 anos e 5 meses

Eu sou viciada em Cyrano desde a 7ª série – o que hoje contabilizam cerca de 10 anos de paixão pelo personagem – e fico realmente comovida com a história e com o desfecho, que apesar de previsível, me balança toda vez que releio. Parabéns pelo post, fiquei admirada como soube colocar tão bem as características desse personagem tão maravilhoso da literatura.

18 Paulo diz:
há 2 anos e 5 meses

Realmente é um clássico da literatura e a história é sensacional e atual até hoje.

E outra coisa que dura até hoje é o incompreensível desejo feminino, que ao mesmo tempo diz querer um “companheiro que a entenda”, nunca sai com esse cara e procura sempre playboys ou, como os moleques dizem, o ‘mala’ da turma para se sentir por cima.

Como o Azaghal disse certa vez ao fim de um Nerdcast:”… temos que nos importar com a próxima geração porque essa já está perdida!!”.

Sem falar que os “Cyranos” de hoje usam a internet e aulas de Jiu-Jitsu para duelar.

19 Funkster diz:
há 2 anos e 5 meses

Parabéns pelo texto! Muito bem
escrito! Normalmente eu não
leio as colunas (ou seja lá
o que for isso) daqui, mas
essa está sensacional!

Um abraço para ti.

20 Rochamdf diz:
há 2 anos e 5 meses

Parabéns, excelente matéria!!! Muito bem escrita e não da nenhum spoiler. Cyrano foi realmente uma grande influência para minha personalidade, tanto que adotava esse pseudônimo para escrever e para entrar nas fatídicas salas de chat para solteiros (leia-se desperate uol e terra). Enquanto o usava nunca tive o sucesso pretendido. O personagem merece sim ser citado quando se discute boa literatura, é imortal!

21 Jim diz:
há 2 anos e 5 meses

Bela resenha, me interessei pelo livro e já comprei o meu pelo submarino.

22 Nath diz:
há 2 anos e 5 meses

Cyrano é relamente inspirador
Toda a vez que me apaixono eu tenho meus momentos de poetisa
quem sabe um dia não escreva um livro?

23 Glam Hyde diz:
há 2 anos e 5 meses

Uau!
Primeiro texto de literatura nerd! Adorei.

24 A. Luiz diz:
há 2 anos e 5 meses

Cyrano de Bergerac é genial! A habilidade com a espada que se compara à habilidade om as palavras, ms que se ressente de não ter a aparência empolgante para mulheres apaixonadas que não se dão conta de que a paixão está mais perto do que se imagina. O filme de Gerard Depardíeu é excelente e anda há uma versão de 1953 sobre este personagem que também se mantém fiel ao espírito da obra.

25 Scarlett diz:
há 2 anos e 5 meses

Li o livro e tenho o filme com o Gerard Depardieu. OTIMOS!

26 ricardo diz:
há 2 anos e 5 meses

Valeu pela reativação da coluna Furuno, estava sentindo falta disso. Até mandei e-mail reclamando.
Abraço

27 Chiriko diz:
há 2 anos e 5 meses

Só me lembro do episódio dos Muppets Babies

28 Felipe Martins diz:
há 2 anos e 5 meses

Ótimo.

29 Antonio Paulo diz:
há 2 anos e 5 meses

Pô! Já tava com vontade de ler o livro. Agora, preciso ‘TER’ o filme tb!
Texto cativante! Parabéns.

30 Thiago Navarro diz:
há 2 anos e 3 meses

hahahahaha já lí esse livro, muuuito tempo atrás.

Até relí a matéria e as passagens foram reaparecendo na memória, e realmente, a comparação é verdadeira. Talvez uma das coisas que teria relação no livro seria realmente pela falta de aptidão com as mulheres, mas somente porque era feio? Sei que não conheço algum nerd que briga bem, e por outro lado, a maioria dos nerds são bons com as palavras, escritas.

Um ótimo livro, que alguém se interessando busca na estante virtual ou em sebos. É um clássico fácil de ser encontrado….

31 Thiago Navarro diz:
há 2 anos e 3 meses

E não me lembro desse episódio do Chapolin, talvez não liguei o personagem à pessoa ou não tinha lido o livro ainda, na´época.

32 Cames diz:
há 2 anos e 1 semana

Parabéns ao colunista! Ótimo texto! Relacionar Cyrano de Bergerac à “realidade” nerd foi golpe de mestre. hehehe… Meu pai me deu o livro num aniversário. Me apaixonei. Comprei o DVD com o Gerard. Excelente!

33 Luuk diz:
há 1 ano e 11 meses

eeeeh, u interpretei o cirano na peça da escola ano passado ._.

34 Darth Caio diz:
há 1 ano e 9 meses

Já li um livro do Cyrano… Muito bom mesmo,. Um começo meio parado , mas com ótimos diálogos e um final terrific!

35 FERNANDO diz:
há 8 meses e 1 semana

E um classico…
sem mais

Comenta aí, nerd!

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