Nunca mais… Nunca mais… Nunca mais…
Cabeceira [Literatura]| Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 | Daniel John Furuno |
Eu me diverti um bocado escutando o Nerdcast 124, não somente pela entrevista com Zé do Caixão, mas também porque me lembrei de diversas passagens do livro Maldito (Editora 34), excelente biografia de José Mojica Marins, de autoria dos jornalistas André Barcinski e Ivan Finotti.
Além de esmiuçar a vida pessoal e de narrar a trajetória profissional de Mojica, o livro tenta analisar como um sujeito de pouca instrução se tornou um diretor cultuado no exterior e admirado por grandes nomes do cinema nacional, como Glauber Rocha e Carlos Reichenbach, entre outros. A conclusão é que, autodidata, Mojica absorveu tudo o que pôde dos filmes e quadrinhos que consumiu, mas nunca se preocupou em guardar nomes ou teorizar aquele conhecimento. Tal idéia é ilustrada pela cômica passagem em que, após testemunhar a filmagem da descida de Zé do Caixão ao inferno (seqüência presente no filme Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, de 1967), o cineasta Luis Carlos Person comentou o quanto a cena remetia à Divina Comédia, de Dante Alighieri. Ao que Mojica respondeu: “Então me apresenta logo esse Dante, que estou louco para conhecê-lo!”
Quando criança, antes de criar meu próprio gosto musical, eu escutava apenas o que passava pelo aparelho de som que tínhamos em casa – desde os LPs dos Titãs do meu irmão até as fitas do Roberto Carlos do meu pai. O velho guardava os cassetes numa caixinha azul e o Rei disputava espaço com outros artistas brasileiros. Uma das campeãs de audiência no lar dos Furuno era Elis Regina; a música dela que mais me chamava a atenção era uma que falava em “Rolling Stone” e “Blackbird”. Segundo o encarte da fita, a canção intitulava-se Velha Roupa Colorida e seu autor era um certo Belchior. Curioso, perguntei ao meu pai se o “Paul” do qual falava a letra era aquele dos Beatles. O velho deu risada e me disse que não era “P-A-U-L”, e sim “P-O-E”, um escritor americano. Não entendi qual era a graça.
Só mais tarde, na adolescência, interessado pelos autores do chamado “Mal-do-Século”, é que fui me deparar novamente com aquele nome. E enfim descobri que o verso da velha canção, no qual eu achava que a Elis cantava “Leruleruleruleru”, na verdade dizia “Raven, never, raven, never, raven” – referência a O Corvo, o mais conhecido poema de Edgar Allan Poe e um dos mais emblemáticos da literatura universal.
Trata-se, sem dúvida alguma, de uma obra-prima, não somente pela trama em si – sobre o sujeito que, sozinho em casa, ensimesmado, lamentado a ausência de sua amada Lenore, recebe a assustadora visita dum corvo, que se instala em sua sala e não faz nada além de repetir “nunca mais” – mas também pelo clima de tensão que o autor consegue criar e pelo ritmo que estabelece através da métrica, da sonoridade das palavras e da repetição de algumas frases.
Vale a pena procurar nos sebos o infelizmente esgotado livro O Corvo e Suas Traduções (Lacerda), que reúne, além da versão original em inglês, célebres traduções da obra feitas por nomes do quilate de Charles Baudelaire, Fernando Pessoa e Machado de Assis. Daí, é possível deduzir o impacto do trabalho desse norte-americano nascido em Boston, em 1809.
Apesar de eternizado por um poema, foi a prosa do autor que se mostrou mais influente. Um de seus principais – e confessos – admiradores foi Arthur Conan Doyle, que criou o detetive Sherlock Holmes inspirado pelo personagem Auguste Dupin, criado por Poe e apresentado em Assassinatos na Rua Morgue (L&PM). Elementos como o protagonista excêntrico que usa o raciocínio lógico e a dedução para resolver um crime e a presença de um ajudante que narra a história fizeram escola no gênero policial.
O grosso da obra de Poe, no entanto, concentra-se no fantástico, no sobrenatural, no horror. Muitos de seus escritos falam de pessoas aparentemente normais que, acometidas por estranhas doenças, passam por transformações e se vêem diante da inevitabilidade da morte – casos de A Queda da Casa de Usher e Berenice, por exemplo. Outros retratam criminosos forçados a arcar com as conseqüências de seus atos graças a acontecimentos inexplicáveis, como em O Gato Preto e O Coração Delator. Mas a força principal de suas histórias certamente está em seus personagens e na atmosfera de crescente suspense de suas narrativas, sendo um dos melhores exemplos o sensacional O Barril de Amontillado. Esses contos estão presentes na compilação Histórias Extraordinárias (Companhia das Letras).
Toda essa angústia e dor presentes em seu trabalho talvez tenham sido reflexo dos próprios acontecimentos na vida de Poe, como a morte prematura de sua esposa (vítima da tuberculose) e sua entrega ao alcoolismo. O escritor acabou tendo um destino trágico, digno de seus contos sobrenaturais. Em outubro de 1849, ele foi encontrado perambulando pelas ruas de Baltimore em visível estado de confusão mental. Internado num hospital, faleceu dias depois e as causas até hoje permanecem desconhecidas – fala-se em doença, porre, suicídio ou até assassinato. Para completar, um século após sua morte, uma figura misteriosa deu início a uma estranha tradição: todo ano, no dia do aniversário de Poe, o visitante não-identificado deixa três rosas vermelhas e uma garrafa de conhaque diante da lápide do escritor.
Mojica provavelmente teria vontade de ser apresentado a “esse tal de Edgar”. Afinal, o cineasta sabe da importância e da eficácia do marketing pessoal. Ao longo de sua carreira, sempre fez questão de acrescentar detalhes pitorescos e polêmicos à sua biografia, chegando até a exagerar alguns acontecimentos e a inventar outros – como apontam Barcinski e Finotti em Maldito.
Isso me faz pensar que talvez eu devesse dizer que conheci Poe graças ao genial episódio Treehouse of Horror, dos Simpsons, no qual Homer e Bart encenam o poema O Corvo. Pelo menos, soaria melhor do que dizer que foi por causa do Belchior.
OBS.: Para comprar Assassinatos na Rua Morgue, Histórias Extraordinárias e outros títulos de Edgar Allan Poe, ou então Maldito, biografia de José Mojica Marins, basta clicar nas imagens.
Tags: edgar allan poe, never more, nunca mais, o corvoPublicado em Cabeceira |
FALANDO NISSO
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Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 8:37 am
Mais um ótimo texto, vou reler alguns livros/contos do Poe, e sugiro lerem “a carta roubada” é um ótimo texto.
Parabéns pelo texto Daniel!
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 8:42 am
Mais um ótimo texto, parabéns Daniel.
Vou reler alguns contos/livros do Poe, e sugiro a todos lerem “A Carta Roubada” é muito bom.
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 8:56 am
além da carta roubada, “o relato de arthur gordon pym” com sua famosa cena da tábua de salvação…
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 10:44 am
Muito Bom!
Recomendo Poe narrado pelo Lou Reed…
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 2:45 pm
Uso esta coluna como referência para minhas leituras.
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 2:56 pm
Ótima coluna! O Corvo é realmente um poema hipnótico, e a tradução de Fernando Pessoa, em especial, é espetacular!
Mas, só uma coisinha: o cineasta não seria Luis SÉRGIO Person? =D
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 8:25 pm
Daniel, comecei a ler a sua coluna agora, e por enquanto não tenho do que reclamar! Excelente o texto sobre o Poe, fica aí a recomendação pra quem não conhece. A L&PM tem alguns títulos do autor BEM baratos, assim como de vários outros autores clássicos.
Ah, pode deixar sugestão de tema pra coluna aqui? Se sim, fica aí o meu pedido de um texto sobre os Beatniks! Bukowski, Kerouac, Henry Miller e cia merecem um texto especial.
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 5:32 am
Poe fez parte da minha sexta série. E ainda sou muito fã.
Vale a pena, nerd.
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 9:44 am
Texto muito bom.
Mas, não vamos nos esquecer do conto “Assassinatos na Rua Morgue” em que aparece o detetive Dupin e que mereceu uma referência feita por Alan Moore nas “Aventuras da Liga Extraordinária”.
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 7:30 pm
Faltou uma das referências mais f*das com relação ao O Corvo, que aparece no curta metragem do Tim Burton de 1982, entitulado “VINCENT”… Simplesmente espetacular…. História, animação em stop-motion e métrica poética sensasionais (e narrado por ninguém menos que VINCENT PRICE !!!!)…. VALE A PENA VER !!!
http://www.youtube.com/watch?v=QkmKhd_h3lk
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 6:03 am
O cineasta é Luís Sérgio Person (pai da Marina Person, da MTV). Acho que a confusão, por causa da sonoridade, foi com Luís Carlos Prestes (ou não).
Só senti falta de um dos meus contos preferidos de Poe, “O Poço e o Pêndulo”, que junto com “A Queda da Casa de Usher” e “O Coração Denunciador” me ensinaram muito sobre estrutura narrativa.
Poe é um ótimo autor e excelente para iniciar adolescentes no hábito da leitura devido às suas histórias de suspense que prendem a atenção de mentes mais jovens.
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 3:24 pm
Confusão nada. Foi canelada mesmo, huahauhauahua!
Meus agradecimentos ao Tuma pela correção!
Renato, não sou muito fã dos “beats”, mas Bukowski [que eu, particularmente, não enxergo como representante dessa corrente] é um dos cinco mais da minha cabeceira. Certamente será abordado aqui na coluna!
E obrigado a todos pelos comentários
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 9:14 pm
Eu adoro “O Coração Delator”, mas tb gosto muito do inigualável “Tu és o Homem!”
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 8:55 am
Parabén Daniel por mais uma excelente coluna!
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 2:20 pm
Se me permite a oportunidade do artigo gostaria de contar uma historia.
Em 1982 tinhamos um professor de ingles no Colegio Tiradentes da BM do RS que foi oficial da SAS - Serviço Aéreo Especial , na 2ª Guerra Mundial, ferido com estilhaço ao saltar de paraquedas na Normandia. E e embora brasileiro e irmão do Gen Newton Cruz o professor Walter Cruz serviu no exercito inglês. Pois bem um dia ele entrou na sala e chamou a todos de “jerimuns” ou “aboboras” na forma jocosa de nos tratar devido aos erros na gramatica de Joyce.
Alguêm ficou bravo com a história e questionou que nos não eramos tão “burros” como ele achava, e a resposta era que a nossa cultura geral era baixissima afinal eramos todos jovens de 13 e 14 anos interessados em discoteca, futebol e normalistas não necessariamente nesta ordem.
Para ilustrar a sua tese, que nosso nivel cultura era baixo ele se propos a um teste!
Disse que faria uma pergunta e não daria mais aula se alguem soubesse a resposta.
A pergunta era o nome de uma das principais obras do poeta Edgar Alan Poe. No fundo da sala eu timido disse: “O corvo” . Me lembro ate hoje da cara do professor e todos perguntando se estava correta rindo antevendo que estava certo.
Mas ele pra confirmar me perguntou o que o corvo dizia no alto dos umbrais? Eu respondi “no more, no more”.
Bom havia lido o livro com dez anos de idade.
Pois é saudade dos colegas do saudoso professor e da juventude.
Alias ele continuou dando aula mesmo eu acertando a resposta.
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 7:01 am
exelente texto!
vale resaltar também uns contos mais curtinhos e muito bons tbm, “o homem que desafiou o diabo” é meu preferido, “William Wilson” e
“o Manuscrtito na garrafa” são indispensaveis!!
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 4:14 pm
O Corvo é excelente, e para complementar, todo mundo deveria ler a Filosofia do Composição (acho que esse é o título), escrito pelo próprio Poe e que explica a composição de seu mais célebre poema.
\\//_
(…)
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 1:31 pm
Nem tenho palavras pra descrever o que eu senti quando li O poço e o pêndulo. Há uns dias atrás teve uma peça aqui em São Paulo que mesclava a vida do Poe com seus contos mais famosos (Gato Preto, O crime da rua Morgue, entre outros) eu infelizmente perdi a promoção (ingresso apenas 2 reais) agora se quiser ver vou ter de desembolsar 30 xelins. Li há uns tempos atrás que em um conto com o Sr. Dupin (Aquele da garota da perfumaria encontrada morta, não me lembro o nome) foi baseado em um crime real nos EUA que o Poe acompanhava pelos jornais da época. Genial é o adjetivo certo pra esse cara.
Quinta-feira, 4 de setembro de 2008 às 5:52 pm
não esquece do cd RAVEN de Lou Reed, dedicado ao conto O Corvo