Nenhuma Pátria me Pariu!
Cabeceira [Literatura]| Quarta-feira, 16 de julho de 2008 | Daniel John Furuno |

Em pleno ano de comemoração do Centenário da Imigração, sou forçado a admitir: sou um japonês fajuto. Meus conhecimentos no idioma são praticamente nulos, facilmente superados por qualquer gaijin fã de mangá. Não freqüento os karaokês da Liberdade e nem os eventos da colônia. Prefiro feijoada a peixe cru. No mês passado, quando me falaram da visita do filho do imperador ao Brasil, respondi que Palpatine não teve filhos.
Uma amiga minha desenvolveu uma teoria para explicar a delicada ligação que mantenho com minhas origens orientais. Segundo ela, eu devo sofrer de algum tipo de complexo de rejeição, causado pelo fato de, ao contrário da maioria dos descendentes, não ter um nome japonês (apenas o nome brasileiro e o sobrenome). De fato, quando criança, questionei meus pais inúmeras vezes a esse respeito. Compadecido, meu avô “inventou” um nome japonês para mim, que, é claro, eu recusei – afinal, se não estava na certidão de nascimento, era apenas tapeação. O argumento final da teoria aponta que, inconscientemente, acabei adotando o apelido que me acompanha desde a adolescência – um típico nome yankee – para suprir a ausência.
Nunca tinha encarado essa explicação com seriedade, até me dar conta de que os artistas japoneses que admiro também são, em algum aspecto, “rejeitados”. Akira Kurosawa (1910-1998), por exemplo, apesar de ter sido o cineasta japonês mais famoso internacionalmente, era alvo de críticas dentro de seu próprio país por ser considerado excessivamente “ocidental”.
A primeira vez em que me deparei com o nome do escritor Haruki Murakami foi ao lê-lo na capa do romance Norwegian Wood (Objetiva), exposto numa gôndola de livraria. Comprei-o mesmo sem saber nada a seu respeito, motivado pela simples curiosidade de ver um autor japonês assinando uma obra com aquele título, o mesmo de uma das minhas canções favoritas dos Beatles.
O livro me cativou desde os primeiros parágrafos, que descrevem o poder que algumas músicas têm de nos transportar diretamente para determinadas épocas de nossas vidas, nos fazendo até mesmo sentir cheiros e ouvir sons de então. A trama é narrada em primeira pessoa pelo personagem Toru Watanabe e se concentra no triângulo amoroso que se forma entre ele, a problemática Naoko, antiga namorada de um amigo de infância que se suicidou, e a faceira Midori, uma colega de faculdade. Ambientado na década de 1960, o livro faz um retrato brilhante da juventude e início da vida adulta do protagonista, com elementos de identificação com o leitor, como o sentimento de inadequação, a incerteza com relação ao futuro e os rompantes de impulsividade. A obra, portanto, enquadra-se perfeitamente no que os acadêmicos chamam de bildungsroman, ou “romance de formação”.
Mais tarde, fui descobrir que Murakami, apesar do grande sucesso junto ao público, é criticado pela profunda influência ocidental em sua escrita e pelo constante uso de elementos da cultura pop, notadamente as inúmeras referências a músicas, filmes e marcas de bebidas, cigarros, roupas e automóveis.
Outra característica do trabalho do autor – que não é explorada em Norwegian Wood – é sua predileção por narrativas fantásticas. O exemplo mais emblemático talvez seja Caçando Carneiros (Estação Liberdade), uma história de detetive bizarra e instigante, na qual nenhum personagem tem nome. Um jornalista passa a receber cartas de um amigo há muito desaparecido e se vê envolvido por um misterioso homem de negócios numa caçada a um carneiro que não deveria existir, ao mesmo tempo em que passa a se relacionar com uma garota com orelhas perfeitas e poderes mágicos. O livro ganhou uma continuação, intitulada Dance Dance Dance (Estação Liberdade), que traz de volta o jornalista e a garota das orelhas perfeitas, além de introduzir novos personagens, como o amigo de infância que se tornou astro de cinema e a recepcionista do hotel. Embora a trama seja mais extensa e complexa, o resultado acaba sendo inferior e até um pouco decepcionante, principalmente por desmistificar alguns dos elementos de Caçando Carneiros.
Tanto o tema da busca quanto o realismo fantástico voltam a aparecer em Minha Querida Sputnik (Objetiva). O mistério da vez é descobrir o paradeiro de Sumire, jovem aspirante a escritora que desapareceu numa ilha grega, para onde havia viajado em companhia da patroa Miu, por quem é apaixonada. A investigação fica a cargo de K., narrador da história, que nutre um amor platônico por Sumire, acaba se envolvendo com Miu e se depara com um jogo de dimensões paralelas e almas divididas.
Um dos pontos fortes das tramas fantásticas de Murakami é que elas nunca são totalmente explicadas, deixando certas perguntas no ar e fazendo com que o leitor tenha que tirar suas próprias conclusões – o que pode desapontar aqueles que preferem tudo “mastigado”. Nesse sentido, sua obra mais bem construída é Kafka à Beira-Mar (Objetiva). A narrativa, fragmentada e engenhosa, acompanha dois personagens totalmente diferentes: o adolescente Kafka Tamura, que foge de casa e é acompanhado apenas pelo menino chamado Corvo (uma espécie de “amigo imaginário”… ou não); e o velho Satoru Nakata, que, apesar de mentalmente deficiente, é capaz de conversar com gatos e provocar chuvas de peixes e sanguessugas. Os caminhos de ambos eventualmente se cruzam numa biblioteca particular, não sem que antes eles encontrem um caminhoneiro solícito, uma pianista e seu quadro misterioso e entidades que se manifestam sob a forma de Johnny Walker e Coronel Sanders.
Ao abraçar suas origens orientais e suas influências ocidentais, Murakami celebra os contrastes existentes no Japão e em muitas outras sociedades, colocando lado a lado a modernidade e a tradição, o capitalismo e a espiritualidade, a globalização do mundo e a solidão do homem. Com isso, prova que, na arte e na vida, o pensamento dicotômico é uma perda de tempo. Por que escolher entre a feijoada e o peixe cru quando se pode ter ambos?
OBS.: Para comprar Norwegian Wood, Kafka à Beira-Mar e outros títulos de Haruki Murakami, basta clicar no link do Submarino aqui no Jovem Nerd!
Tags: Caçando Carneiros, Dance Dance Dance, Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar, Minha Querida Sputnik, Norwegian WoodPublicado em Cabeceira |
FALANDO NISSO
- Nenhuma notícia similar encontrada

![[BlogBookmark]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/blogbookmark.png)
![[BlogMarks]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/blogmarks.png)
![[del.icio.us]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/delicious.png)
![[Digg]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/digg.png)
![[Facebook]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/facebook.png)
![[Furl]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/furl.png)
![[Google]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/google.png)
![[linkaGoGo]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/linkagogo.png)
![[LinksMarker]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/linksmarker.png)
![[MySpace]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/myspace.png)
![[Sphere]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/sphere.png)
![[Technorati]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/technorati.png)
![[Windows Live]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/windowslive.png)
![[Yahoo!]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/yahoo.png)
![[Email]](http://jovemnerd.ig.com.br/wp-content/plugins/bookmarkify/email.png)
Quarta-feira, 16 de julho de 2008 às 3:31 pm
Mais uma vez um ótimo texto, fiquei com vontade de ler Haruki Murakami (nunca tinha ouvido falar)
Quarta-feira, 16 de julho de 2008 às 4:33 pm
Queria saber quando é que vão falar de livros do Cornwell e do Conn… ¬¬’
Quarta-feira, 16 de julho de 2008 às 5:16 pm
Engraçado, ontem estava na Cultura do CN e cheguei a dar uma folheada nesse Kafka. Não me chamou mta atençäo, vou procurar os outros, gosto de autores q trabalham bem o fantástico.
E por falar nisso vcs têm alguma indicação?
Quarta-feira, 16 de julho de 2008 às 1:58 am
Daniel,
Que texto envolvente! Como disse o Harvox, deu vontade de ler. Minha fila de livros a conferir está ficando cada vez maior…
Hiro, você já leu Julio Cortázar? A obra dele é gigantesca, mas há um conto que eu conisdero um dos melhores já escritos que se chama O Perseguidor. É muito bom! É uma literatura levemente mais erudita, mas consegue não ser chata. Procure.
Até mais!
Quarta-feira, 16 de julho de 2008 às 12:16 pm
Bem escrito mesmo!
E Murakami é um dos meus autores preferidos mesmo tendo só lido o Minha Querida Sputnik umas duas vezes quase chorando por K. não conseguir reencontrar a Sumire. Vou ver se encontro esses outros titulos ^^.
Quarta-feira, 16 de julho de 2008 às 3:29 pm
Excelente!
Quarta-feira, 16 de julho de 2008 às 12:30 pm
Excelente texto. Essa é com certeza a minha coluna preferida aqui no Jovem Nerd. Am literatura e identifiquei uma falah minha quando li esse texto: eu não conhecia esse autor. Preciso dar um jeito nisso enquanto é tempo.
Muito obrigada.
Quarta-feira, 16 de julho de 2008 às 3:16 pm
Daniel, se você tem interesse em conhecer algo mais da literatura japonesa, procure também por Junichiro Tanizaki, que tem uma obra relativamente grande, mas pouco publicada no Brasil. Não é um escritor novo nem pop (morreu há mais de 30 anos), mas agrada bastante ao leitor de hoje em dia.
Desse, fala-se muito em “As Irmãs Makioka”, mas eu prefiro bem mais “Voragem”, que tem personagens intrigantes e uma história envolvente e levemente bizarra.
De Murakami eu li recentemente uma crítica muito boa sobre “Kafka À Beira-Mar”, e já estava de olho. Vamos ver se eu boto a fila de livros para andar mais depressa e chegar logo nele.
E parabéns, porque essa é a minha coluna favorita.
Quarta-feira, 16 de julho de 2008 às 10:12 pm
Ah também concordo, se eu posso ter um churrasco e um pirogue, porque escolher? =D
Também fiquei curiosa para conhecer as obras do Murakami, principalmente Kafka À Beira-Mar,bem… imagina poder fazer chover peixe e sanguessugas!
já vou reservar para ler nas férias =)
Parabéns pelo artigo!!!
Quarta-feira, 16 de julho de 2008 às 8:15 pm
muito bom o texto, como todos os seus que havia lido anteriormente. vontade de ler.