Empoeirados Vol. 3 – Toma essa, Dan Brown!

Conheço um compositor que tem a resposta na ponta da língua no caso de alguém sugerir que uma canção que ele escreveu é “parecida demais” com alguma outra: “são sete notas musicais; mais cedo ou mais tarde, alguém acaba repetindo uma sequência já utilizada”.
Tá certo, somente uma coincidência pode explicar, por exemplo, a bizarra similaridade melódica entre o refrão de Buffalo Soldier, de Bob Marley, e The Tra La La Song, tema de abertura de The Banana Splits Adventure Hour (se bem que não é difícil imaginar o senhor Marley, chapadão, assistindo ao programa e gritando “ya, man!” pra Drooper, o leão). Mas em outros casos, é pura questão de cara-de-pau mesmo – como Rod Stewart, que, depois de perder o processo de plágio movido por Jorge Ben Jor, ainda conseguiu se safar da encrenca doando os royalties de Do Ya Think I’m Sexy (cujo refrão é “parecido demais” com o de Taj Mahal, do brasileiro) pra UNICEF.
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No universo literário, não há a desculpa fajuta das sete notas. Mas sempre resta o velho truque de alegar que uma eventual semelhança se trata, na verdade, de “referência”. Pra acabar com qualquer resquício de dúvida, basta citar nominalmente no seu livro o autor e a obra dos quais você chup… ops, nos quais você se inspirou e, pronto, ninguém vai poder acusá-lo de agir de má-fé.
Essa foi a estratégia adotada pelo estadunidense Dan Brown, cujo best seller O Código Da Vinci toma os argumentos envolvendo o Priorado de Sião “emprestados” do livro O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Brown não apenas cita a fonte como ainda usa os sobrenomes de dois dos autores, Richard Leigh e Michael Baigent, pra batizar um de seus personagens principais, Leigh Teabing (e nem se dá ao trabalho de criar um anagrama decente).
Os escritores citados se sentiram lesados, mas o processo movido por eles não deu em nada. Só serviu pra incrementar as vendas de sua própria obra e, de quebra, dar publicidade extra ao já hypado O Código Da Vinci. Particularmente, nenhuma das ideias me impressionou – nem as teorias conspiratórias de Leigh e Baigent e nem a trama de suspense de Brown. Afinal, uma das responsáveis pela minha formação literária foi a brasileira Stella Carr.
Crime em um museu e vilão misterioso? São os elementos principais de O Segredo do Museu Imperial. O Palácio de Cristal, em Petrópolis (RJ), inaugurado pela Princesa Isabel, pode não ser tão charmoso quanto o Louvre, em Paris; mas está ameaçado por um suposto atentado, previsto por uma menina com poderes paranormais. Cabe aos Irmãos Encrenca, Marco, Eloís e Isabel (protagonistas de diversas aventuras escritas pela autora carioca), impedir a tragédia – não sem antes cruzar com o homem com um zíper costurado na boca e o rapaz com olhos de fogo. O epílogo do livro ainda brinca com a história brasileira, ao imaginar o dia em que, aos 14 anos de idade, Pedro de Alcântara, filho de D. Pedro I, assumiu o governo e tornou-se imperador.
Conspiração e uma sociedade secreta? Já estavam lá, em O Fantástico Homem do Metrô. Dessa vez, aparições fantasmagóricas no metrô de São Paulo colocam os Irmãos Encrenca frente a frente com os segredos da Maçonaria; para desvendá-los, é preciso pesquisar em recortes de jornal do século 19 e seguir uma pista que passa por locais emblemáticos da capital paulista, como a quadra da Vai-Vai, a Biblioteca Mário de Andrade e a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Ao mesmo tempo, uma invasão de criaturas mutantes revela que a questão ambiental já era motivo de preocupação no final dos anos 1970.
A autora não se contenta em usar nomes de personalidades reais para batizar seus personagens. Ela prefere colocá-los dentro da obra, como os escritores Marcos Rey e João Felício dos Santos e o radialista Randal Juliano, entre outros, que aparecem em O Fantástico Homem do Metrô. E, ao invés de referência, ela parte direto para a reverência. É o caso de A Morte Tem Sete Herdeiros.
Assinado em parceira com Ganymédes José, o livro é uma divertida homenagem aos romances policiais de Agatha Christie (que, sim, um dia será abordada aqui na coluna). Na cidade de Jacuruçunga, os sete herdeiros do título se reúnem para o enterro do milionário Rogério Matta Leitão. Estranhas mortes, sumiços e regressos ocorrem e todos, preocupados com as revelações do misterioso diário do falecido, são suspeitos. Até mesmo o fantasma da criadora de Hercule Poirot e Miss Marple aparece pra mostrar quem é que manda.
Realmente, um compositor qualquer tem apenas sete notas musicais com as quais trabalhar; um compositor de verdade, por outro lado, elabora melodias que não apenas soam originais, mas que continuam sendo assobiadas com o passar das décadas e incentivam outros a criar suas próprias. Stella Carr certamente pertence ao segundo grupo.

































