E Dizem Que O Português É Que É Burro…
Tempos atrás, resolvi fazer propaganda da Cabeceira para alguns conhecidos meus. Um deles, sem maldade (ou não), me parabenizou e disse que iria “dar uma olhada nos textos”, apesar do fato de achar “Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia um saco”, nas suas próprias palavras. Com meu orgulho duplamente ferido, respondi que essas não são as únicas leituras de um nerd e que a coluna procura ser abrangente, indo desde George Orwell até a Coleção Vaga-Lume.
A mesa de boteco era o cenário ideal e, portanto, a conversa logo evoluiu para um acalorado debate sobre a falta de interesse da grande maioria dos brasileiros pela literatura e a equivocada estratégia do nosso sistema educacional, que nos força a engolir obras complexas quando ainda somos jovens demais. Mas, acima de tudo, tagarelamos a respeito do preconceito com relação a determinados gêneros e assuntos e discutimos sobre a empáfia dos acadêmicos.
Devo confessar que durante algum tempo, eu me recusei a ler qualquer livro de autores que tivessem ganhado o Nobel. Eu considerava a premiação uma mera iniciativa elitista dum bando de velhos pedantes que queriam apenas conferir uma aura de prestígio a seus “eleitos” e alavancar as vendas. Hoje, sei que minha atitude era tão estúpida quanto a daqueles que automaticamente tacham de descartável ou inferior qualquer obra que seja mais acessível ou pop. A conclusão é que o radical sempre sai perdendo – o crítico conservador jamais se deixará envolver pela prosa de um, digamos, Stephen King, da mesma maneira que, se tivesse mantido a antiga birra, eu jamais me encantaria com o gênio de José Saramago.
O primeiro romance do autor português que me caiu nas mãos foi justamente sua mais conhecida obra, Ensaio Sobre a Cegueira – que novamente está em pauta, graças à adaptação para o cinema dirigida por Fernando Meirelles, atualmente em cartaz. Não se pode dizer que exista algo de inédito em usar uma epidemia inexplicável (no caso, a “cegueira branca”) para retratar a fragilidade da sociedade. O grande mérito do escritor é aliar seu espírito crítico e refinada ironia a uma aparentemente contraditória visão humanista. Isso, fora seu estilo único.
Talvez a principal dificuldade para um leitor de primeira viagem seja se acostumar ao português de Portugal (sabiamente, o respeito à grafia original foi condição imposta às edições brasileiras) e, sobretudo, à maneira como o autor escreve, jogando pela janela muitas das regras de redação que nossas professoras tanto se empenharam em nos ensinar. Saramago, pelo jeito, desconhece o ponto final e as teclas “enter” e “tab”, preferindo parágrafos quilométricos e orações separadas por vírgulas. Mas, depois que se acostuma com isso, o que antes podia parecer mera excentricidade se revela uma poderosa maneira de se imprimir um ritmo particular, incomparável, às narrativas.
O que mais impressiona, no entanto, é que, além de contar histórias de forma magistral, o autor o faz partindo de premissas espetaculares e absolutamente irresistíveis. O Ano da Morte de Ricardo Reis, por exemplo, fala do heterônimo do poeta Fernando Pessoa, que sobrevive à morte de seu criador e retorna a Portugal (vindo do Brasil, onde estava exilado). Enquanto fica hospedado num hotel, se envolve num relacionamento amoroso e lê as notícias sobre a ascensão dos regimes fascistas na Europa, ao mesmo tempo em que passa a receber visitas do fantasma de Pessoa.
Já História do Cerco de Lisboa narra as desventuras de um revisor que está trabalhando num livro sobre o episódio histórico ao qual se refere o título: no século XII, a capital portuguesa estava sob controle dos mouros, mas foi reconquistada após empreitada militar comandada por Afonso I, que contou com o auxílio de um exército de Cruzados. Por algum motivo, o revisor decide acrescentar a palavra “não” justamente no trecho em que os Cruzados respondem ao pedido de ajuda do rei português. A partir daí, a trama se divide, acompanhando as conseqüências práticas do ato do revisor e a versão alternativa da história do cerco, que teria se desenrolado caso aquele “não” realmente tivesse existido.
Pessoalmente, considero O Evangelho Segundo Jesus Cristo a obra-prima do escritor. Subvertendo tudo o que nos conta a bíblia canônica, Saramago apresenta um Jesus humano que, com o tempo, descobre que é filho dum deus frio e calculista e que foi posto no mundo apenas para ser sacrificado e dar início a uma religião que se espalhará por todo o planeta, à custa de morte, culpa e sofrimento. Extremamente ácido, o livro é repleto de passagens sensacionais, como aquela em que Jesus se encontra com deus e o diabo e se dá conta de que os dois são exatamente iguais – a diferença é que o primeiro tem barba.
Os acadêmicos vão me xingar. Mas Saramago é um autor nerd em muitos aspectos. Estão lá, em sua obra, a inteligência, a fantasia, o senso de humor que muitos não irão entender, a sensação de não encontrar seu lugar no mundo, o interesse pela História e pelo profano e até a construção de uma linguagem própria – este último ponto, aliás, levado ao extremo.
Recentemente, perguntado sobre as resoluções do acordo ortográfico que pretende unificar a língua portuguesa em todos os países que a adotam como idioma oficial, Saramago respondeu simplesmente que continuará escrevendo da mesma maneira como sempre fez; os revisores que se encarreguem de mudar. E foi então que eu finalmente entendi a real utilidade de um prêmio Nobel.
































Li 3 Saramagos até hoje: Cegueira, Evangelho e As Intermitências da Morte, que foi o primeiro que li. Este tem um capítulo em especial, de umas dez páginas que explodiu minha cabeça, me tornou o fã incondicional de Saramago que sou hoje.
Acho sensacional a maneira diagramaticamente densa dele escrever e considero muito interessante e cheia de possíveis interpretações a escolha dele de não dar nomes aos personagens, como acontece em Cegueira e Intermitências.
Até agora só li inteiro mesmo o Intermitências, comecei o Evangelho e A Caverna, mas não consegui acertar o ritmo da leitura, talvez por ser muito jovem na época.
Saramago é realmente um mestre, mas a leitura é difícil. Tem que se esforçar um bocado pra pegar o ritmo. Mas é uma leitura que vale a pena.
Não é como ler Harry Potter, Senhor dos Anéis ou mesmo Machado de Assis, só lendo Saramago para saber o que é ler Saramago.
Li o “Ensaio” e agora estou no “Evangelho”. Saramago é um gênio, e sou feliz de ter nascido brasileiro só por poder ler sua obra no original.
Infelizmente li apenas Memorial do Convento, o qual não é uma das melhores obras de Saramago. O problema foi que li para fazer um trabalho da faculdade (que foi tremendamente massante) e por isso, na época, não gostei nem um pouco do livro, apesar de ter dado muitas risadas em alguns trechos. Hoje confesso que a obra não é ruim e posso dizer com certeza que livro tem um certo quê de nerd. Para ter uma idéia o livro foi escrito em 1982 e nele Saramago escreveu sobre a invenção de uma máquina (Passarola) que voaria pelos céus!! claro que tal máquina não poderia ter sido construída na vida real, mas foi muito divertido ler sobre ela – e sobre o resto do livro também!.
Muito bom o texto, mas tem um resalva:
“Talvez a principal dificuldade para um leitor de primeira viagem seja se acostumar ao português de Portugal (sabiamente, o respeito à grafia original foi condição imposta às edições brasileiras)”
“Sabiamente” nada. Saramago exige que seus textos mantenham a grafia original em todos os territórios portugueses.
Essa parte é até facil de se acostumar, e ajuda em alguns casos. Já que ele raramente indica qual personagem está falando, o “Tu” dá dicas.
Imagino como deve ser o sofrimento dos tradutores para outras linguas. Mas aind considero Guimarães Rosa mais dificil de ler e tradusir.
Abraços.
Cara muito boa esse coluna parabéns.
Meu To Do Read esta cada vez mais cheio por causa tua.
Eu até hoje só li O Homem Duplicado e acho que a história tinha tudo pra ser melhor. Na minha opinião ele enrola demais e a forma sem parágrafos e tudo mais pode até ser original, mas pra mim é original-ruim.
Essa coluna tá muito bacana!
A obra do Saramago é espetacular. Meu destaque vai para “A Jangada de Pedra”.
E uma ressalva vai para o destaque que o colunista deu para a “linguagem própria” que o escritor criou: na verdade não há criação. Saramago usa do discurso indireto livre com muita propriedade.
Meu To Do Read esta cada vez mais cheio por causa tua. [2]
“…estratégia do nosso sistema educacional, que nos força a engolir obras complexas quando ainda somos jovens demais.” – Essa frase definiu minha vida escolar. Se dependesse dela, eu não leria livros hoje pelos traumas que sofri!
Ótima coluna. Não acho que alguém falaria melhor de Saramago com tanta naturalidade, bom senso e conseguindo descrever os livros dele. É muito difícil falar sobre esse autor que foge de regras em todos os sentindos!
Já li o Ensaio Sobre a Cegueira e vou ler agora o Intermitências da Morte. Só ele sabe utilizar de um cenário catastrófico para poder mostrar problemas piores que vivemos.
Respeito quem gostou da leitura… Mas eu não consigo ler o português de Portugal sem me irritar.
A acentuação e a ausência de parágrafos também me deixou louco… Teve páginas que tive de ler 2 ou 3 vezes para entender.
O único que li foi o Ensaio, e odiei. O suficiente para não querer ler mais nada dele.
Mas a coluna está ótima. Adorei a auto-crítica.
Saramago é o cara! e para mim a obra máxima dele é Evangelho segundo Jesus Cristo tb! é um livrão, levei um tempinho pra conseguir terminar, mas caraca…mto bom!
ótima esta coluna! e cretina as novas regras de gramática.
Grande Furuno! Mais uma excelente matéria sobre leitura de de altíssimo nível. Se o Saramago é nerd, eu não sei, talvez ele até recebece de maneira bem humorada esse epíteto! Leiam “Objecto Quase”, uma coletânea de contos que pode ser uma boa iniciação ao mundo de Saramago, com várias histórias onde se identificam elementos que tornaram suas obras famosas. E no fim há um conto entitulado o Centauro, José Saramago mostra que sabe escrever fantasia e ainda refletir sobre o homem em nossos tempos modernos.
Saramago é sensacional. Também li o Ensaio Sobre a Cegueira primeiro e endoidei. Nunca havia ficado tão tenso e nervoso com um livro. Não dá pra largar enquanto não termina.
Li depois o Ensaio Sobre a Lucidez que agora torço para que também vire filme (e que Hollywood permaneça longe). E depois do Evangelho, não há quem não veja Deus como um “cara” com um tremendo senso de humor [negro].
Ainda não tinha lido sua coluna, Daniel. Está de parabéns!
Nunca tinha percebido o quão nerd Saramago de fato é. rs
Li o “Homem Duplicado” que é muito bom.
Saramago é gênio.
Quem é Saramago? Só conheço Manoel Carlos, Gilberto Braga, Benedito Ruy Barbosa, Dias Gomes, Carlos Lombardi entre outros. Minha amarga e velha ignorância me leva com as massas estúpidas ao desconhecimento do mundo. Só vejo o que me apresentam, só conheço o que me oferecem. Ah se eu soubesse quem é Saramago, talvez eu não vivesse nesse vazio mental, preso a este mundo pequeno, melancólico e quase morto. Ah se eu conhecesse Saramago, talvez eu fosse feliz. Quem é Saramago?
Saramago é sensacional. Lí apenas o ‘Ensaio Sobre A Cegueira’, talvez os momentos de leitura mais proveitosos da minha vida.
Tudo acontece mesmo como você falou. O estilo que ele usa é magnífico para a forma como ele conta as histórias.
Vale à pena ler o blog do escritor também, iniciado nesse mês.
http://caderno.josesaramago.org/
Parabéns pela matéria e pela iniciativa de trazer um autor meio desconhecido do mundo nerd à tona, eu gosto muito do saramago pelas histórias inusitadas, pela forma como ele conduz a narrativa e por que nao, pelo jeito que ele escreve também.
Recomendo um livro que você não citou no texto mas que foi o que eu mais gostei que é as intermitências da morte, onde vc ve um saramago mais divertido, com muito humor negro e situações engraçadas e também reflexões profundas sobre o tema.
Agora na minha opinião, a melhor coisa sobre saramago é que ele não deixa de ser um escritor pop. qualquer pessoa que pegar os livros dele pra ler vai entender pelo menos o básico da história, então ele acaba por agradar todos os gostos desde a pessoa mais simples até o cara mais refinado.
Post de quase 6 meses atr’as, muito bem escolhido e me fez ir pra pr’oxima biblioteca alugar novos livros. Valeu mesmo!
Outros vencedores do Nobel que considero indispensáveis são:
Yasunari Kawabata
e
John Steinbeck
A principal vantagem dos dois são as obras CURTAS, ou seja: não são autores prolixos, mas conseguem deixar muito claras suas intenções de maneira rápida e clara.
Sem enrolações, direto ao ponto, mas nem por isso sem intensidade
Nao sou nerd. Pelo ao menos nao devo ser! So descobri este site hoje!!! Que pena! Estava procurando por Saramago, encontrei voces Nerds. Muito prazer!!! Sou suspeita para falar de Saramago, Gosto demais!!!!
Li os comentarios e percebi que ninguem se referiu as metaforas em suas obras. Sao todas muito bem utilizadas. Minha primeira leitura foi Memorial de um Convento. Ri muito com a parte dos percevejos que “incomodaram” a rainha que nao engravidava. Apos a promessa de erguer um convento o “Rei” consegue se tornar pai. A minha Igreja Catolica deve ter ficado louca com esta passagem. Tchau!!
Pouco conheço da obra de Saramago e portanto nada posso falar de específico sobre as mesmas mas conheço o “Saramago em Portugal”.Vivo em terras lusas e “parece-me a mim” (pra falar como os portugueses – nunca vi tanto pleonasmo na minha vida) que esse talento de escrita de que vcs tanto falam está relacionado com a fato (ou seria o “facto”- hahaha!!) de que desde há muito Saramago vive fora de Portugal, renega (e muito bem!!) Portugal e viveu o mundo como poucos portugueses de cá jamais teriam capacidade de o fazer. Escolheu uma espanhola para se casar e vive na Espanha por opção de nunca morar aqui. Saramago é personagem bastante criticado por aqui basicamente por uma terrível inveja que os portugueses tem com seu sucesso que é muito maior lá forae começou fora das terras lusas e essa de “exigir” que seus livros não sejam “traduzidos” para o nosso portugues é apenas porque perderia a essencia pois sua escrita está muito relacionada a este formato de se escrever por aqui o que diga-se de passagem é horrivel para uma leitura agradável e fluente. Quanto aos que reclamaram dos livros que leram na escola, agradeçam a Deus os professores que assim exigiram de voces, minha filha está na 9ª serie e até hoje só leu meia dúzia de livrinhos de merda, de autores mediocres e a juventude portuguesa é de um nivel de mediocridade alarmante para mim que assim como vcs leram grandes clássicos da literatura brasileira e mundial. A meninada da faixa dos 11 aos 17 anos é de uma ignorancia de assuntos em geral que me deixa boquiaberta o que vai refletir nos licenciados, uma bando de estúpidos. Um engenheiro informático não saber que o yogurte tem que ser conservado na geladeira é ph…de aturar!! Tento corrigir as falhas imensas do ensino português, que é fraquíssimo, com viagens e estímulo a leitura de outros livros diferentes daqueles poucos indicados pela escola e frequentando o teatro principalmente em Londres e Nova York.
Ah a coluna é dez (aqui seria 20 hahaha!!!) um abração a toda turma nerd
Muito boa a coluna! De Saramago só li o ensaio, as intermitências e o evangelho. Mas o melhor de começar a ler Saramago foi me fazer ver que livros no original tem uma fluência muito diferente de traduzidos. Antes de ler [e me apaixonar pel'] o ensaio, o último livro escrito em português que tinha lido fora na época do colégio, e eu, como ressaltado na matéria, não tinha ainda maturidade para entender livros tão densos. Desde então passei a buscar escritores latinos, pra citar alguns: Gabriel Garcia Márquez [pra quem gosta de Saramago é um prato cheio, com a sua prosa falada], Jorge Luís Borges [o cara escreve textos metafísicos com um requinte de trazer lágrimas aos olhos!], Roberto Bolaño [não o chávez, pelamordedeus! esse é pràqueles que gostam do jeito verborrágico, descontrolado, descendo a ladeira... Noturno do Chile é um livro inteiro de um parágrafo só!] e a reler clássicos como Machado, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos
Eu não tinha lido nenhum livro do Saramago … Após ler o primeiro descobri que todos são escritos para chocar!
Quantos de nós já pensou: “e se a morte não existisse”. Em Intermitências da Morte, o assunto é galgado de forma tão cruel e ao mesmo tempo tão simples.
Parabéns Daniel pelo comentário.
Débora
Saramago é um gênio. Não quero dizer que deixo seus livros em segundo plano, mas quando chego na prateleira e vejo que o livro que eu pegaria já foi alugado, vou direto pra seção de literatura portuguesa, bem lá embaixo, onde estão as obras do Saramago. Fecho os olhos e pego um, sem medo. Só troco o livro caso eu já tenha lido.
O seu estilo diferente, com parágrafos e frases enormes e lotados de vírgulas é muito bom. Com menos ele faz muito mais.