Bangue-Bangue à Brasileira
Tive uma professora no primário que dizia que, ao invés de crescer assistindo filmes e seriados sobre cowboys, índios Sioux e a conquista do Velho Oeste, nós deveríamos ter a chance de ver na tevê os bandeirantes, a tribo Tupi e a colonização do Brasil. Costumo me lembrar disso quando me deparo, por exemplo, com a instituição do Dia do Saci como alternativa ao Halloween e outras iniciativas igualmente tolas e ufanistas.
Há algo de patético na necessidade de auto-afirmação que parece motivar o rebuliço em torno do astronauta Marcos Pontes, da inclusão do Cristo Redentor entre as Sete Maravilhas do Mundo ou da indicação de algum filme brasileiro ao Oscar. Todavia, é preciso lembrar que tão simplista quanto esse patriotismo boçal é aquele velho discurso de que o país é uma m@#$% e que aqui nada presta.
Em estado de total graça e estupefação depois de assistir Batman – O Cavaleiro das Trevas, um amigo meu vaticinou que o cinema brasileiro jamais produzirá algo que chegue aos pés desse filme espetacular. Entre uma cerveja e outra, discutimos a respeito do enorme abismo que separa Hollywood da indústria cinematográfica nacional em termos de investimentos e tecnologia. Falamos também sobre especialização – os estúdios estadunidenses, quando encontram uma fórmula, exploram-na exaustivamente, como no caso das adaptações de HQs; algumas vezes, eles acertam em cheio ao contratar cineastas nerds que são apaixonados pelo tema e, portanto, especialistas em super-heróis. Meu amigo quis encerrar a conversa argumentando que brasileiro é especialista em fazer filme sobre o retirante miserável que luta para vencer na vida.
Por ser algo tão presente na nossa realidade, é natural que esse seja um tema recorrente. E há grandes películas que o abordam de maneira inteligente e sensível, como Cinema, Aspirinas e Urubus (de Marcelo Gomes, 2005), só para ficar num exemplo recente. Mas é verdade que, até agora, não foi lançada nenhuma adaptação live-action de quadrinhos brasileiros que seja ao menos relevante. Só consigo me lembrar do sofrível Gatão de Meia-Idade (de Antônio Carlos da Fontoura, 2006), inspirado nas tirinhas de Miguel Paiva. Já no caso das adaptações literárias, filão também bastante explorado por Hollywood, a coisa muda de figura. Nos últimos tempos, tivemos como exemplos os excepcionais Cidade de Deus (de Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) e Tropa de Elite (de José Padilha, 2007), adaptados, respectivamente, das obras de Paulo Lins e de Luis Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel. 
Quando se fala em transposição das páginas dos livros para as telonas, é preciso destacar o nome de Marçal Aquino, um dos melhores escritores brasileiros contemporâneos. Sua relação com o cinema começou quando o conto Matadores, presente na compilação Miss Danúbio (Scritta, esgotado), seu segundo livro, se transformou no filme Os Matadores (1997), dirigido por Beto Brant. São duas tramas paralelas: numa, o assassino de aluguel Alfredão e seu novo parceiro estão no encalço de uma vítima; na outra, Múcio, primeiro parceiro de Alfredão, se envolve com a mulher errada. Não é difícil imaginar que as duas histórias se cruzam em algum ponto.
O longa-metragem marcou o início da carreira de Brant e da frutífera parceria entre o cineasta e o autor – os dois escreveram em conjunto o roteiro de Ação Entre Amigos, segundo filme de Brant, lançado em 1998. Em 2001, foi a vez de O Invasor, roteiro também a quatro mãos, desta vez usando um rascunho do escritor como ponto de partida. Depois que o filme foi lançado, Aquino completou a novela (retratando um assassino de aluguel que, depois de executar o serviço, passa a se intrometer na vida dos dois empresários que o contrataram) e a publicou pela Geração Editorial. O escritor adaptou ainda livros de outros autores, como Um Crime Delicado, de Sérgio Sant’Anna (que deu origem ao filme Crime Delicado, de Beto Brant, 2005); O Cheiro do Ralo, de Lourenço Mutarelli (filme homônimo de Heitor Dhalia, 2006); e Até o Dia em que o Cão Morreu, de Daniel Galera (filme Cão Sem Dono, de Beto Brant, 2007).
Não é difícil imaginar as razões que levaram a esse envolvimento de Aquino com a Sétima Arte. Existe um forte traço cinematográfico em suas histórias, que têm tanta influência de escritores como Raymond Chandler e Graciliano Ramos quanto de cineastas como Quentin Tarantino e Sam Peckinpah. É o que se percebe, por exemplo, no conto Renda-se, Bob Mendes. Você Está Cercado, presente na compilação O Amor e Outros Objetos Pontiagudos (Geração Editorial, esgotado). Trata-se de uma verdadeira obra-prima em termos de ambientação e diálogos. O autor consegue nos transportar diretamente para o pátio escuro e molhado diante do necrotério, onde o tal Bob Mendes, um velho contrabandista que voltou à sua cidade natal depois de anos, se encontra com o antigo patrão, o delegado local e um agente da Polícia Federal.
A prosa de Aquino é fácil, envolvente e funciona perfeitamente em narrativas curtas, como num dos destaques da compilação Famílias Terrivelmente Felizes (Cosac & Naify): o conto A Face Esquerda, que narra a história de dois amigos de infância forçados a se enfrentar. O escritor também se sai muito bem em narrativas mais extensas, como o romance Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios (Companhia das Letras), sua mais recente obra, cuja trama é centrada nas desventuras do fotógrafo Cauby. O personagem chega ao interior do Pará por conta de um serviço temporário, mas acaba se sentindo estranhamente preso à cidade, em grande parte graças ao seu envolvimento com uma mulher misteriosa. Usando e abusando dos saltos no tempo, o autor nos brinda com um plot twist bastante engenhoso no final.
Se fosse para apontar a principal virtude de Marçal Aquino, eu elegeria o talento para construir personagens profundos e verossímeis, fruto do grande poder de observação que ele provavelmente aperfeiçoou ao longo dos anos em que trabalhou como jornalista. Durante sua carreira como repórter, inclusive, chegou a entrevistar alguns matadores de verdade. Isso lhe deu subsídios para criar uma galeria de tipos frios, sanguinários e irresistíveis, ampliada com Cabeça a Prêmio (Cosac & Naify), novela que marcou sua volta ao universo dos assassinos de aluguel, e a emblemática compilação Faroestes (Ciência do Acidente, esgotado), na qual se destaca Balaio. O conto narra um tenso duelo num boteco de periferia, com direito a um protagonista de poucas palavras, um jogo de baralho, dois bandidos ameaçadores, revólveres sendo engatilhados debaixo da mesa e um bartender amigo detrás do balcão. Só faltou mesmo trocar o boteco por um saloon e colocar o vento soprando tumbleweeds do lado de fora. Minha professora do primário ficaria satisfeita.
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De fato as adaptações brasileiras de livros, ou contos, para filmes tem um toque de fidelidade a mais do que as obras cinematográficas de outros paises…embora tal fidelidade seja expressa de maneira transposta na maioria das veses.
Concordo com uso de transposições em adaptações mais do que fidelidade completa. Isso possibilitando uma expreção mais fidedigna das intenções dos autores do que mera “cópia” dos textos originais. Nisso, mas não só, o cinema brasileiros é do car&$#@, mesmo por que com o nosso padrão realista de cinema tudo fica mais palpável trazendo maior identificação com a realidade e dando vida a obra. Pode até se que eu sinta isso por ser brasileiro e me identificar mais com tal padrão…claro, mas não creio que o cinema estadunidence seja capaz de produzir esse efeito de comunicação mesmo em seus nativos…
Ah…foi só um comentário a acrescentar…e desculpe-me a ortografia!
Excelente a coluna, como de praxe. Agora foi melhor, porque desta vez é alguém que eu só conhecia de nome.
É ótima a idéia deste espaço, porque quando eu era adolescente geralmente escolhia os autores pelos comentários de revistas especializadas, as quais os adolescentes de hoje não tem interesse ou acesso. O JN, que tem tanta credibilidade com a “comunidade”, é um dos melhores meios de incentivo à leitura que eu posso pensar.
Prezado Daniel,
Você escreve bem, faz boa pesquisa para produzir esta coluna… Mas ciname nacional é uma MERDA FODA mesmo. E é inclusive porque possuimos autores mediocres. Se alguma obra se sobre-sai, é devido a modismo de epoca. E não me venha falar de cinema arte, porque eu quero mesmo é ver sangue, sexo, drogas violencia e rock ‘n’ roll. É o que gruda. A cultura é uma consequencia… Ah Imortal Nelson Rofrigues!
Só faltou dizer que Cabeça a Prêmio também vai virar filme. Marco Rica, isso mesmo, o ator, irá dirigir. Ouvi dizer que Alice Braga já está fechada para o papel da filha do Traficantão que se envolve com o piloto de avião. Abraço!
Cenário 1: Milhardário resolve patrocinar um estúdio cinematográfico gigantesco no interior de SP e para isso investe, (com vários sócios, inclusive governo federal e fundos de investimento), digamos, 1 bilhão de reais. O mercado nacional se alvoroça e centenas de roteiristas e diretores, (famosos ou não) fazem fila nos escritórios do Grupo pra tentar alavancar seus projetos.
Cenário 2: O preço de apartamentos no Leblon, Copacabana e outros lugares sobem às estratosferas, pois aqueles mesmos roteiristas e diretores, depois dos primeiros projetos “cabeça”, começam a comprar tudo que tenha vista pro mar que vejam pela frente.
Isso já foi tentado no Brasil nos anos 60 e 70 e não deu certo. O único que tentou com seriedade fazer filmes populares foi Mazzaropi, e ele pelo que me consta, apesar do sucesso de publico de seus filmes, morreu falido.
Lembrem de Chatô, projeto de filme daquele atorzinho chinfrin da Globo. Até hoje ele não explicou onde enfiou toda a grana e que até hoje não deu em nada…
Quis dizer om tudo isso que o problema do cinema nacional não é criatividade ou capacidade profissional, mas sim de HONESTIDADE!!
Lembrei do atorzinho chinfrim que mencionei acima; Guilherme Fontes. Também conhecido por ser o primeiro a beija a Sandy em novela.
Beijou a Sandy e sumiu com o dinheiro. Bela carreira.
No quesito adaptação de quadrinhos os dois curtas do Gralha, apesar de serem filmes amadores, são infinitamente superiores a Gatão de Meia-Idade.
Os cineastas brasileiro, e roteirisatas podem até ter idéias boas, mas não sabem realmente fazer os filmes. Com raras exceções. E sinceramente, talvez ninguém queira ver sexo, drogas e violencia, ainda mais porque muitos filmes apelam justamente pra isso, e todo mundo reclama. Sempre tem um apelo pra vulgaridade, sempre tem uma fotografia feia onde parece estar sempre de madrugada, sempre tem algo de “sujo” na maioria dos filmes brasileiros “modernos”.
Existem as exceções, filmes bons pra todos, sérios ou bem humorados, sem qualquer apelo vulgar, filmes feitos do jeito certo, como: O Auto da Compadecida, O Redentor, Turma da Mônica, Lisbela e o Prisioneiro, os filmes de Mazzaropi, os clássicos com Grande Otelo e etc, e os do inicio do cinema nacional, como O Ébrio.
O Brasil estava na direção certa, não devia nada as produções estrangeiras, mas…
Eu quero ler Marçal Aquino =D
O filme “Como fosse você” 1 e 2 é para chorar de rir, o Tony Ramos está muito “engraçada”.