Bryan Singer prova mais uma vez sua extrema competência em transportar super-heróis dos quadrinhos para telona.



(Nota do Fanaticc)
 
(Nota do Jovem Nerd)
 

Depois de mais de duas décadas, um incontável número de combinações de atores-diretores-roteiros e muitos milhões de dólares gastos, Super-Homem retornou a telona. Pior que a polêmica envolvendo os números da produção promete ser ainda maior que as versões estapafúrdias criadas pelos profissionais descartados. Os jornais Wall Street Journal e New York Post estão afirmando que o orçamento final teria chegado a casa dos US$ 261 milhões. Já o jornal Variety diz que o budget é de US$ 250 milhões. Ambos os números foram negados pelos executivos do estúdio Warner Bros. Em nota divulgada à imprensa esta semana, o estúdio diz que Super-Homem – O Retorno custou US$ 204 milhões. A justificativa dessa conta teria chegado a esse valor por causa dos efeitos especiais (US$ 75 milhões) e antigos débitos, isto é, gastos com os roteiros das versões de Tim Burton e McG, direitos autorais e seleção do novo elenco (US$ 45 milhões).

Mas quem considera esse gasto como prejuízo, não imagina o lucro que companhia teve quando desistiu de levar as idéias, atores e diretores antes cogitados. J.J. Abrams, hoje cultuado pela série “Lost”, escreveu um roteiro em que Krypton não tinha explodido e Lex Luthor era um alienígena. No caso de Tim Burton, o roteiro escrito por Kevin Smith apresentava um herói problemático trajando um uniforme preto e seria interpretado pelo calvo Nicolas Cage. Courteney Cox, Linda Fiorentino e Sandra Bullock eram as escolhas para dar vida a Lois Lane. Justiça seja feita, o nerd de carteirinha Kevin Smith não escreveu o argumento da história. “Fui pago pela Warner para roteirizar uma história já pronta. A primeira reação foi de gargalhadas quando li o manuscrito. Disse que era horrível, mas eles insistiram. Talvez quisessem usar meu nome para acalmar os fãs de quadrinhos”, disse Smith em entrevista.

Loucuras como essas eram “descobertas” pelos fãs e geravam milhares de protestos por e-mail e cartas. Especialistas acreditam que era a própria Warner que espalhava os boatos, como forma de garantir que o projeto desse certo. Para vestir a capinha vermelha do herói foram cogitados Brendan Fraser, Josh Hartnett, Ashton Kutcher, Keanu Reeves e até o anão do Matt Damon entre outros. Para dirigir a lista também é esdrúxula: Martin Campbell, Simon West, Oliver Stone, David Fincher, Rob Bowman, Steven Soderbergh, Michael Mann, Brett Ratner e John Woo. Muitos comprovadamente talentosos, mas por terem um estilo muito específico, poderiam cometer os equívocos que o cineasta Ang Lee cometeu em “Hulk”. Qual seria a teoria da conspiração da vez que Oliver Stone criaria. No mínimo o envio de Kal-El para Terra faria parte de um plano por parte dos kriptonianos de escravidão da raça humana. Ou mesmo no caso de John Woo. Conseguem imaginar Lex Luthor pulando em câmera lenta com duas armas em punho contra o Super-Homem rodeado de pombas?

Polêmicas a parte, a Warner estava perdida. Seu objetivo era simplesmente ressuscitar a franquia da mesma forma que fez com o Homem Morcego em “Batman Begins”. Não queria bater recordes, tudo bem que seria ótimo se eles acontecessem, mas o alvo era conseguir ótimos comentários por parte da crítica especializada e que o público saísse satisfeito do cinema. Com esse boca a boca gratuito, futuramente o DVD seria impulsionado, e a franquia estaria aberta de novo. E funcionou? Parece que sim. O filme está tendo uma boa bilheteria e 78% da crítica norte-americana aprovou o filme com louvor.

Aficionado pelos dois primeiros filmes do Super-Homem, diretor Bryan Singer apostou todas as suas fichas em continuar a história a partir desse ponto. A trama começa com o Homem de Aço retornando à Terra depois de uma misteriosa ausência de cinco anos. Ele resolveu investigar os restos de seu planeta de origem destruído, para descobrir se ele era o único sobrevivente da catástrofe.

Depois de se reunir com Martha Kent, sua mãe adotiva e viúva, ele resolve voltar para seu emprego no jornal Daily Planet como seu alter-ego Clark Kent. Lá ele descobre que a mulher que ele ama, Lois Lane, resolveu seguir com a sua vida. Nos anos que estiveram separados, Lois embarcou em um relacionamento sério com Richard White, sobrinho de Perry White, dono do jornal. Para piorar ela teve um filho chamado Jason. Em seu retorno ele será obrigado a enfrentar o desafio de encurtar a distância com Lois, enquanto tenta encontrar um lugar numa sociedade que aprendeu a viver sem o Super-Homem. Ao mesmo tempo Lex Luthor, seu velho inimigo, acabou de ser solto da prisão. Sedento por vingança, Luthor consegue furtar os cristais de poder da Fortaleza da Solidão, que terão papel determinante no plano elaborado pelo vilão. Ele travará uma luta mortal com Luthor na tentativa de impedir os planos de destruição do planeta que o adotou por parte do facínora.

Nesse processo Super-Homem embarcará numa viagem de redenção que o levará das profundezas do oceano aos mais longínquos confins do espaço sideral. Quem quiser entender o que aconteceu aos personagens durante a ausência do herói, poderá descobrir nas quatro graphic novels que serão lançadas pela DC Comics.

Bryan Singer sempre imaginou Super-Homem – O Retorno como uma continuação da saga original, uma chance de avançar na história sem ter que recontar radicalmente as origens do herói. Para os fãs do filme de Richard Donner de 1978 a satisfação é garantida. O filme já abre com os famosos letreiros usados anteriormente. A trilha sonora tem a lendária música criada por John Williams. E Jor-El, pai do herói, é interpretado mais uma vez pelo mitológico Marlon Brando, falecido em 2004. "Usamos uma combinação de cenas inéditas, usadas e recriadas. Você não verá necessariamente Marlon Brando andando ou reanimado, no sentido convencional da palavra, mas você ouvirá diálogos antigos e novos com um tratamento completamente novo", explicou Singer. Os produtores e Singer conseguiram obter os direitos para a utilização dessas seqüências inéditas.

Elas são o resultado de uma breve participação do ator em “Superman II”, cuja utilização original foi vetada pelo estúdio quando Brando exigiu uma porcentagem da bilheteria da continuação. As referências ao primeiro filme não pararam. Singer prestou mais uma homenagem a uma clássica cena de “Superman”, de Richard Donner. Na nova seqüência, a bola de futebol americano é substituída por uma de baseball, mas o gesto do garoto fazendeiro Clark Kent continua tão emocionante hoje quanto foi em 1978. Aliado a isso, cenas clássicas das revistinhas também seriam acopladas ao filme. Com a palavra os roteiristas Michael Dougherty & Dan Harris: “Nós criamos em cima dos lendários arquétipos do Homem de Aço. Vários elementos das publicações estarão lá. No primeiro trailer de divulgação os fãs puderam perceber a influência do trabalho publicado pelo Alex Ross. Existem tantas encarnações do herói que facilitou o nosso trabalho”.

Como Christopher Nolan fez verão passado com seu “Batman Begins”, Singer adicionou bastante dramaturgia ao filme. Ele desenvolve os personagens centrais e ao mesmo tempo os colocam questionando suas escolhas e existência. Pode-se dizer que o filme é uma mistura de melodrama e aventura, com um ligeiro toque de humor. A ênfase nos relacionamentos é visivelmente para pegar os adultos, enquanto a aventura satisfaz as crianças. Para quem gosta de profundidade encontrará material suficiente para refletir também. Singer já tinha provado em seus dois filmes sobre o X-Men, que heróis possuem conflitos. Aqui ele explora a única vulnerabilidade do Homem de Aço: seu coração. Kal-El é o único sobrevivente de Krypton. Um órfão alienígena criado por humanos, mas nunca um deles. Ele não pode revelar sua identidade sem colocar em perigo as poucas pessoas que tem relacionamento. Salvar o planeta é um trabalho solitário e doloroso. Singer mostra que até seres de outros sistemas solares sentem solidão.

Versões anteriores do herói sempre exploraram seu lado humano: seu relacionamento com seus pais da Terra e seu lado estabanado perto de Lois Lane. No filme de Singer a ênfase é em sua divindade. Ele não é um super-homem, mas um deus (chamado de Kal-El), enviado por seu pai celestial (Jor-El) para proteger a Terra. Uma missão que requer não só músculos, mas sacrifício, talvez com a sua própria vida. Existe todo um subtexto por trás do roteiro que Super-Homem seria uma espécie de Jesus Cristo da nova era. Preste atenção nas freqüentas conversas sobre pais e filhos, como também a sugestão que o herói precisa se sacrificar para que os terráqueos se salvem. Até um dos pôsteres de divulgação apresenta o herói na posição de crucifixo, com as pernas juntas e os braços esticados.

Spoiler só no próximo parágrafo.

"Usando as lendárias frases ditas por Marlon Brando no 1º filme: “o filho se torna o pai, e o pai se torna o filho”, temos uma pista do que Singer quer realmente retratar no filme. Apesar da relação romântica entre Lois e Clark parecer o tema central, não é. A relação é familiar entre pais e filhos: Jor-El com Super-Homem e mais tarde com Super-Homem e Jason. Cada pai diz a seu filho que ele precisa superar as façanhas do pai. Comoventemente, essa força, essa divindade, isola Super-Homem dos humanos. Ele pode salvá-los, mas não ser um deles. Lois pode amá-lo, mas nunca conseguirá entendê-lo. Nessa hora que percebemos, uma série de mitos clássicos e modernos embutidos na história. Super-Homem é o Deus que caiu na Terra, mantendo um ciclo de morte e transfiguração. E como deu origem a um filho parte humano, ele poderia ser o Jesus Cristo dos agnósticos. E Lois? Maria Madalena. Bem mais interessante que o fraco “Código Da Vinci” do diretor Ron Howard."

Os melhores filmes de Hollywood foram sempre aqueles que conseguiram colocar um espirituoso subtexto dentro de um produto voltado para as grandes massas. Super-Homem – O Retorno mantém essa tradição. Mas o filme não é apenas profundo. Tem bastante aventura e não esquece sua premissa que é divertir. As seqüências de ação são de tirar o fôlego. Destaque para a entrada triunfal do herói, durante o salvamento de um vôo experimental. Quantas vezes o vimos salvar um avião caindo de diversas maneiras. Pode-se dizer que essa é uma amalgama de todas. Também é a primeira vez desde o seu desaparecimento, que o público tem a oportunidade de ver o filho mais famoso de Krypton em ação. As pessoas vão a loucura no filme, ao mesmo tempo os espectadores dentro do cinema tem a mesma reação. Nos Estados Unidos as platéias têm gritado e batido palmas. Talvez até pela lembrança dos trágicos acidentes envolvendo a Challenger e o vôo United 93.

Resolvido a história, a nova tarefa era encontrar alguém para vestir as roupas do herói. Os fãs enlouqueceram de felicidade quando ele anunciou a procura de um desconhecido. A escolha seria feita nos mesmos moldes que lançaram o ator Christopher Reeve ao estrelato. O desconhecido Brandon Routh (que já fez pontas em “Gilmore Girls”, “Will & Grace” e “Cold Case”), ator de 25 anos nascido no estado norte-americano de Iowa, foi contratado para viver o novo Super-Homem/Clark Kent. Routh foi escolhido depois de uma exaustiva busca que percorreu os Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e Austrália. Milhares de candidatos foram entrevistados. Realmente é impressionante a sua semelhança para com Reeve e o próprio herói. Ele tem o contrato padrão para três filmes da Warner Bros.O novo intérprete do Super-Homem, recebeu um presente especialíssimo de Dana Reeve, a viúva de Christopher Reeve. Pouco antes de falecer, Dana enviou uma carta a Routh desejando-lhe sorte com o papel. "Não consigo nem dizer quanto essa benção significou. Eu estava nervoso, porque não tinha qualquer contato com a família Reeve e é aterrorizante tentar ocupar o espaço deixado por Christopher Reeve. Foi uma grande honra receber a carta dela". Dentro da carta estava um medalhão com o símbolo do herói e a frase "Vá em frente". Lamentavelmente, Dana Reeve faleceu ano passado, de câncer de pulmão, aos 44 anos.

Independente das semelhanças com Christopher Reeve, Routh consegue um ótimo desempenho. Pela primeira vez o herói precisa demonstrar uma faceta que nunca foi explorada no cinema. Routh alterna momentos de alegria, melancolia, felicidade e tristeza com extrema competência. Ele não é apenas uma sombra de Reeve, mas tem o visual e os maneirismos necessários para interpretar o herói. Também em seu alter-ego, Clark Kent, ele não imita Reeve. Ele não é comicamente atrapalhado, mas sim ligeiramente desajeitado. Ele carrega o filme em diversos momentos com a mesma graciosidade como voa. Fica comprovado que sua escolha foi acerto pela densidade que diretor Bryan Singer queria dar o personagem. Outro que também é muito bem aproveitado é Kevin Spacey na pele do vilão Lex Luthor.

Ele não está tão escrachado quanto nos primeiros filmes."Essa é a maior razão de termos contratado Kevin Spacey como Luthor. Ele tem uma habilidade maravilhosa de alternar sutilmente sua interpretação entre o humor e o sadismo. Assim, foi divertido explorar esses dois lados de Lex. Creio que teremos um Lex bem mais sádico que o de Gene Hackman", diz Singer. E concluiu:"Meu objetivo com Superman - O retorno é celebrar a memória coletiva das pessoas em relação ao personagem Super-Homem e seu desenvolvimento desde 1938. Partes do filme parecerão familiares física e emocionalmente. Partes dele serão novas. Lexacaba de sair da prisão e ele tem um passado em comum com Clark Kent, respeitando os conceitos estabelecidos na telessérie Smallville”. Seguindo os passos de Gene Hackman, que viveu Lex Luthorem três filmes do Super-Homem, Kevin Spacey pode interpretar o calvo vilão mais duas vezes. Em recente entrevista, Spacey disse que certamente aparecerá no segundo filme da série, e possivelmente, também num terceiro.

No caso de Lois Lane, a atriz Kate Bosworth levou a melhor por causa de Kevin Spacey. Bryan Singer já tinha feito vários testes para o papel. Atrizes como Elisha Cuthbert, Claire Danes e Keri Russell contracenaram com Brandon Routh e chegaram a ficar bem perto de conseguirem. Kate levou a melhor, pois tinha acabado de rodar “Beyond the Sea” biografia do cantor Bobby Darin ao lado de Kevin Spacey, que por sinal também acumulou o cargo de diretor. Foi ele que sugeriu que testasse Kate para o papel. “Bryan pediu sugestões a Kevin sobre o papel de Lois Lane. Kevin sugeriu que eu fizesse um teste. Eu contracenei com Brandon primeiro de Clark Kent e depois como ele de Super-Homem. Foi mágico, nem pareceu que era o mesmo cara fazendo ambos os personagens. A nossa química foi tão perfeita, que agradeci a Brandon por aquele momento, mesmo que não fosse a escolhida”, disse Kate. Ela apesar de estar bem nos momentos dramáticos do filme, apresenta um problema para os mais exigentes. Por nenhum instante, Bosworth convence como uma ótima jornalista, quanto mais ganhando o prêmio Pulitzer.

Os outros escalados foram Sam Huntington como Jimmy Olsen, Eva Marie Saint como Martha Kent e James Marsden como Richard White. Frank Langellasubstituiu Hugh Laurie como Perry White, o editor do jornal Planeta Diário. Laurie teve que deixar a produção quando a Fox decidiu começar mais cedo as filmagens da nova temporada da telessérie “House, M.D.” "Com a benção de Bryan, meu Perry White será muito diferente das encarnações anteriores do personagem. Eu não poderia interpretar um homenzinho que late ordens enquanto mastiga seu charuto. É fisicamente errado para mim. Eu o vivi como um tipo forte, mas quieto", disse Langella. A decisão é acertada, afinal, comparações entre o editor do Planeta Diário e o chefão do Clarim Diáriode Homem-Aranha, que se enquadra na descrição acima, serão inevitáveis. Parker Posey na pele de Kitty, ajudante de Luthor, rouba diversas cenas.  Stephan Bender, estreante, foi contratado para viver o jovem Clark Kent. Sua participação no filme se resume a um flashback. Na seqüência, Clark recorda sua juventude, quando aprendia a controlar seus poderes em Smallville, Kansas. Uma outra participação interessante é de Noel Neill, a Lois Lane do seriado e TV dos anos 50. Jude Law foi convidado para fazer o papel do general Zod, mas depois de recusar várias vezes, Bryan Singer acabou descartando o personagem.

No caso dos efeitos espaciais foram desenvolvidos aparelhos que tornassem críveis as super habilidades do herói. Um estúdio inteiro foi montado na Austrália que foi recoberto com tela verde (croma-key). Nele, cabos, câmeras e braços mecânicos cuidarão de toda a movimentação no ar de Brandon Routh, o novo Super-Homem. A idéia é criar aparatos capazes de emular incríveis peripécias, como mudança de direção no vôo e loopings. Aparentemente, Bryan Singer preferiu economizar na computação gráfica (diferenciando seu filme de “Matrix”) e quer seu ator voando "de verdade" na telona.

O filme não é só acertos. Seus 155 minutos são um pouco longos. Seu ritmo não é rápido como uma locomotiva (não resisti ao trocadilho). E toda vez que parece que vai terminar tem mais um detalhe. Mas isso foi por causa das escolhas feitas por Bryan Singer e seu usual diretor de fotografia Newton Thomas Sigel. Eles imprimem um lirismo nunca visto em um filme de super-herói. A intenção aqui é humanizar os personagens e colocá-los num cenário mágico realista, mesmo sendo uma obra de ficção. O visual do filme impressiona. E da mesma forma que Lois Lane nunca conseguiu superar o desaparecimento do Super-Homem, parece que o público também. É ótimo tê-lo de volta.

 


por Mario “Fanaticc” Abbade